Dominação masculina revisitada por Bourdieu e Crítica ao texto feita por Mariza Corrêa

Bourdieu
Inicia procurando mostrar que “as mulheres, que foram constituídas como seres dotadas de gênero pelo mundo social, podem contribuir para sua própria dominação” (14).
Questões metodológicas...
Ele afirma que descrever as estruturas objetivas do universo social dos cabilas é ao mesmo tempo descrever as estruturas mentais do observador (homem da tradição cultural neomediterrânea).
Ao estudar mais de perto as práticas rituais e míticas dos cabilas, pode-se descobrir um “sistema de princípios de visão e divisão comum à civilização mediterrânea inteira, sistema que sobrevive até hoje em nossas estruturas mentais” (15).
Desse modo, ele procura explicar como as disposições “falonarcísicas”, claramente verificáveis no caso cabila, haviam sido inscritas nos “corpos dos homens e das mulheres das sociedades ocidentais contemporâneas”.
Sua posição de observador é a de alguém que está montando um quebra-cabeças, usando pistas deixadas pelas pessoas que o construíram. Ele se diz informado pela visão cabila (16).



Principais resultados da analise antropológica dos cabilas...

1. Necessitação através da sistematicidade. Em universos sociais em que a “sexualidade” não se tornou autônomas em relação a outros campos (erotismo, apêndice comercial e a pornografia o caso extremo dessa autonomização), as diferenças sexuais estão inseridas e submersas num sistema de OPOSIÇÕES ANTROPOLÓGICAS e cosmológicas que são constitutivas de uma visão e experiência de mundo. Essas diferenças fazem parte de uma visão de mundo sexualizada que se incarna na topologia sexual do corpo socializado, de seu comportamento, de sua espacialidade e mobilidade.
2. A oposição hierárquica, binária, entre masculino e feminino parece fundamentada na natureza das coisas, porque encontra eco praticamente em toda parte (17).
3. Divisão social e disposições corporais. No mundo cabila a ordem masculina se impõe como auto-evidente, universal. Deve-se talvez à concordância quase perfeita e imediata entre as estruturas sociais (como as expressas pela organização social do espaço e do tempo e na divisão social do trabalho) e as estruturas cognitivas inscritas nos corpos e nas mentes. (18)
4. Socialização por gêneros e a somatização da dominação. Educação exerce uma ação psicossomática que leva à somatização da diferença sexual ou da dominação masculina. Acorporificação das diferenças entre os sexos é construída socialmente e age de acordo com 4 modalidades:
a) RITOS DE INSTITUIÇÕES – o autor dá o exemplo da circuncisão que marca uma oposição entre os que participam e os que não participam.
b) CONSTRUÇÃO DO CORPO BIOLÓGICO ou a reconstituição simbólica de diferenças anatômicas. Os esquemas que organizam a percepção dos órgãos e das atividades sexuais são também aplicados ao próprio corpo (masculino e feminino). (19)
Este trabalho de socialização tende a realizar uma somatização progressiva das relações de dominação de gênero através de uma dupla operação:

  • a construção sócio-simbólica da visão do sexo biológico que dá fundamento às visões míticas do mundo;
  • a insinuação de uma héxis corporal que constitui uma autêntica política corporificada (??) (19). Uma relação de dominação que se inscreve na natureza biológica, sendo ela própria uma construção social naturalizada.

c) CODIFICAÇÃO SIMBÓLICA DO ATO SEXUAL, na qual o homem está em cima e a mulher embaixo – ato de dominação, concepção do ato sexual a partir da primazia do masculino.
d) ORGANIZAÇÃO SIMBÓLICA E PRÁTICA DOS usos diferenciados do corpo e dos ritos que efetuam a virilização dos meninos e feminização das meninas. (21)

“A masculinização dos corpos masculinos e feminização dos corpos femininos realiza uma somatização da arbitrariedade cultural que eqüivale a uma duradoura construção do inconsciente” (22).
Cognição e mau reconhecimento
Bourdieu começa o ataque ao ponto de vista de reflexão feminista sem nomeá-las diretamente:
“Sempre que os dominados […] apliquem a objetos do mundo natural e social – e, em particular, à relação de dominação em que foram pegos, bem como às pessoas através das quais essa relação se realiza […], esquemas não-pensados de pensamento, que são o produto da corporificação dessa relação de poder, seus atos de cognição serão inevitavelmente atos de mau reconhecimento.” O que leva a interpretar a relação do ponto de vista do dominante, isto é, como natural e assim conspirar por sua própria dominação – cumplicidade do corpo socializado.
Bourdieu constrói uma TEORIA DA VIOLÊNCIA SIMBÓLICA, da qual segundo ele, o gênero é um dos melhores exemplos. Essa “violência simbólica se dá por meio de um ato de cognição e de mau reconhecimento que fica além – ou aquém – do controle da consciência e da vontade, nas trevas dos esquemas de habitus que são ao mesmo tempo generados e generantes.” (23)
Essa teoria da violência se diferenciaria das outras teorias de duas maneiras:
 pela Filosofia da ação que ela pressupõe, ou seja, “homens e mulheres constróem o mundo social […], mas o fazem com formas e categorias que são construídas pelo mundo, categorias que eles nem escolhem nem fazem e das quais não são os sujeitos. […] A masculinidade está costurada no habitus, em todo habitus, tanto do homem quando da mulher” (23).
 pela maneira como analisa a economia simbólica, i.e., na análise materialista da ordem simbólica. “A sociologia da dominação masculina ressalta melhor do que a maioria dos temas as severas deficiências das teorias materialistas da dominação.” Para ele “a dominação masculina [...] fundamenta-se na lógica da economia das trocas simbólicas” (24).

“Segue-se daí que a libertação das mulheres só pode vir de uma ação coletiva que vise a uma luta simbólica capaz de desafiar a concordância imediata das estruturas objetivas e corporificadas”, que subverta as fundações da produção e reprodução do capital simbólico (24).

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BOURDIEU, P.  “Conferência do prêmio Goffman: a dominação masculina revisitada” in LINS, Daniel (org.).  A dominação masculina revisitada. Campinas: Papirus, 1998.
CORRÊA,  Mariza. “O sexo da dominação” in Novos Estudos CEBRAP, (54), julho 1999, pp. 43-53.

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