História do Pudor

BOLOGNE, Jean Claude. História do Pudor. Rio de Janeiro: Elfos Ed.; Lisboa, Portugal: Teorema, 1990.

A pudicícia do imperador Maximiliano era tal que ele se recolhia sozinho na sua cadeira furada, “sem se servir de criados de quarto ou de pajens”... Tal era a de Isabel de Castela, que a rainha morreu de uma úlcera que não quis mostrar; houve mesmo que administrar-lhe a extrema-unção debaixo dos lençóis, pois não queria mostrar os pés. E que dizer de Ana de Áustria que, por mais de cem mil francos, mandou destruir quadros “indecentes”? De Luís XLII, que borrou os frescos do seu quarto? De Mazarino, que mutilava as estátuas?
No oposto, que dizer da baronesa de Montreuil-Bellay, que mandava um dos seus vassalos, quando ia a casa dele, levá-la às cavalitas àquele sítio onde ele próprio ia a pé e estender-lhe o musgo que fazia as vezes de papel? Que dizer de um rei que recebia os seus súbditos na sua cadeira higiênica e mandou que, no teatro, os selvagens ~‘trajassem como se estivessem quase nus”? Estes exemplos, todos da mesma época, mostram que, se o pudor existiu sempre, aplicou-se, ao longo dos séculos, a domínios sensivelmente diferentes. Grande era a tentação de escrever essa história...

É aqui que surgem as dificuldades. Por evidentes razões de espaço, tive que limitar o meu estudo à sociedade européia — e essencialmente francesa — da Alta Idade Média aos nossos dias. Limitar não é isolar. Repetidamente tenho tentado demonstrar que o pudor, longe de ter nascido no espírito de um monge do século VI, explorou a dupla veia, latino-helenística e judaico-cristã. Quando, no século XVII, as viagens intercontinentais re [fim da p.7] velaram aos Europeus povos que obedeciam a um pudor diferente do seu, surgiu uma nova reflexão, de que foi preciso tomar conhecimento ganhando alguma distância em relação às fronteiras estabelecidas. Mas, de uma maneira geral, os sarcasmos dos Atenienses sobre as Espartanas nuas e o rubor das negras por causa dos calções que os missionários lhes impunham não serão aqui evocados.
Uma vez no interior deste terreno demasiado rico, houve que erguer mais balizas. O pudor é um sentimento complexo, difícil de definir, e incide sobre inúmeros objectos. Destes, escolhi um o mais rico, o mais corrente e também o que melhor se presta à análise: a vergonha da nudez. Optei por uma definição o mais simples possível, hipótese de trabalho que será conveniente temperar no fim desta pesquisa. Com efeito, todos aqueles que se arriscaram neste terreno ignoraram esta dimensão histórica particularmente fecunda: cada época privilegia este ou aquele aspecto do pudor, que se evidencia com muito mais nitidez numa perspectiva diacrônica. Foi este o princípio que presidiu às grandes divisões desta obra e é esta a idéia de base subentendida em todos os capítulos: em todas as épocas, verifiquei um certo equilíbrio entre permissividade e recato excessivos. O Renascimento, o século XIX, abrem-se ao nu artístico e encerram a vida quotidiana numa pudibundaria mais rigorosa. Pelo contrário a Idade Média, o século XVIII, embora façam “quadros que velam a nudez”, têm mais gosto pelas “realidades”.
Após um breve apanhado teórico sobre as diferentes concepções do pudor, o essencial da obra debruçar-se-á sobre um estudo temático e sistemático das relações do homem com a sua nudez nos diferentes domínios da vida quotidiana e da vida artística. Como é que, ao longo dos séculos, tem sido encarado o corpo nu do próximo? Como se tem reagido a essa mesma nudez representada num quadro, no teatro, na literatura? A con¬clusão, mais teórica e rigorosamente cronológica, inspirar-se-ánestas reacções para esboçar uma definição geral de pudor.

Definir o pudor
Sentimento de vergonha, de incómodo que se tem ao fazer, ao enfrentar ou ao ser testemunha das coisas de natureza sexual; disposição permanente para esse sentimento.” [fim da p.8]
“Incómodo que se sente perante aquilo que a dignidade de uma pessoa parece proibir.”
A definição do dicionário introduz já duas distinções no sentimento do pudor: pudor corporal, sexual, ou pudor dos sentimentos, por um lado: pudor contingente ou permanente, por outro lado. Noutras palavras ou com outras cambiantes, estas distinções sempre existiram.

Pudor dos sentimentos. Num romance do século XLII, o “belo Escanor” chora a morte da sua amiga. Os seus companheiros repetem-lhe que não convém a “um homem como ele” manifestar tão grande dor e quando o cavaleiro foi juntar-se aos seus pares conteve-se o melhor que pôde, pois tinha nojo e vergonha de mostrar a sua dor1.
Sob o “nojo” de Escanor esconde-se uma das formas mais constantes do pudor: a de os homens mostrarem as suas lágrimas. A mais bela análise deste pudor encontra-se no século XVII, em Les Caractêres, de La Brúyêre: “Como é que rimos tão livremente no teatro e temos vergonha de chorar lá?”, interroga-se o moralista, antes de descrever longamente as maneiras de conter as lágrimas, até ao ~mau rir ccim que queremos encobri-las2”. Análise que nada perdeu da sua actualidade.., a não ser porque o cinema nos permite agora chorar no escuro, enquanto nos leva a dissimular o riso.
O pudor dos sentimentos não tem história. Quando lhe arranjam uma, é curiosamente paralela à do pudor corporal. Encontraremos, por exemplo, no século XVII, uma componente social do pudor: não é de boa educação mostrar-se nu a uma pêssoa a quem se deve respeito, mas é permitido despir-se perante um criado. E curioso observar que o pudor dos sentimentos conhe¬ceu então esta mesma inflexão. “Na presença dos Grandes e de todos aqueles que respeitamos, desvia-se o rosto para rir ou para chorar”, anota La Bruyêre.
Visto deste ângulo, o pudor surge mais como uma enfermidade do que como uma virtude. Serve para dissimular uma fraqueza, um ridículo, a falta de uma armadura — as lágrimas não ficam bem ao homem, como as palavras grosseiras à mulher. E é aqui que a história volta a entrar no pudor do sentimento. Porque as fraquezas são uma questão de moda.
Foi moda durante muito tempo, por exemplo, esconder as [fim da p. 9] virtudes. Os salões onde La Rochefoucault recolheu as suas máximas tinham feito do amor-próprio a suprerna armadilha, motor de todas as paixões e de todos os vícios. Edme Rétif tinha guardada como uma relíquia a carta elogiosa que o seu mestre-escola dirigira a seu pai. Lia-a à família de vez em quando, mas tinha o cuidado de saltar a passagem em que o mestre declarava “melhor que vós”— corar por nos dizerem que somos melhor que o nosso pai? As três palavras, quase apagadas, foram encontradas depois da sua morte pelo seu filho Nicolas. Edme Rétif tinha “um pudor natural que não lhe permitia abrir a boca sobre os seus sentimentos3”.
Pudor bem esquecido hoje, quando o louvor em boa ordem começa pelo próprio. Mas, se perdeu o pudor do amor-próprio, o século XX inventou outros, desconhecidos do Grande Século. Escondemo-nos para fazer o sinal da cruz, observa Monsenhor Lustiger1, que antigamente se multiplicavam à vontade. Escondemo-nos para escrever os primeiros poemas, quando, há cinquenta anos, sonharíamos ser um novo Rimbaud. “Porquê esconder o melhor e exibir o pior?, interroga-se Michel Polac, que confessa este género de pudor5. Não, não se trata do verdadeiro e do falso, do melhor e do pior, é muito simplesmente boa educação e pudor. E indecente exibir dignidade (já nem falo da angústia), indecente falar de si próprio, indecente fazer perguntas indiscre¬tas (‘Porque vive você?”).”
São estes os pudores do nosso século — e muitos outros, como falar de dinheiro e permitir que nos ofereçam um copo. Vergonha do que hoje se considera fraquezas. Pressente-se aí o laço que une pudor corporal e pudor dos sentimentos. E errado tentar distinguir neste vínculo um pudor exterior e um pudor interior. Trata-se, com efeito, da mesma atitude. A vergonha da nudez nasceu numa época em que mostrar-se nu era sinal de fraqueza (como na Idade Média) ou de ridículo (como no século XIX). Hoje, a moda quer que a literatura, as artes, a publicidade se libertem do pudor corporal: por isso ele desapareceu do domínio artístico, enquanto na vida quotidiana continua a usar¬-se bastante. Embora limitemos este estudo ao pudor do corpo, não perdemos de vista que ele se integra nunia história muito mais vasta da vergonha e que é outro o equilíbrio que se esta¬belece entre vergonhas fisiológicas e psicológicas.
Pudores masculino e feminino. Chorar, lamentar-se, corar, orar: o pudor do sentimento é considerado domínio do homem, [fim da p.10] a mulher privilegia o pudor corporal. A cada página encon¬traremos este pudor feminino que será rei e senhor até ao sé-culo XVIII e que hoje se mantém bem vivo, apesar do feminismo.
“Nada é tão natural na mulher como o pudor”, escrevia o padre La Moyne, «é um véu que ela não compra e que não custa a fazer. Nasce, forma-se, cresce com ela. Os cabelos só lhe nascem depois deste véu que ficará quando eles caírem. É de todos os países e de todas as épocas, de todas as condições e de todas as idades6” Quanto ao homem, o nosso jesuíta não consegue negar-lhe todos os pudores. Mas não são naturais nele: tendo-lhe Deus doado o seu próprio Espírito (e não à mulher, desculpem...), há que mostrar-se digno da oferta. Mas trata-se, quando muito, de urna “premente obrigação de Modéstia”
O pudor é, portanto, o estado original da mulher: ai daquela que o maltrata! “A mulher sem pudor é depravada”, proclama Rousseau, “maltrata um sentimento natural do seu sexo7’ E Rétif de la Bretonne, abordado por urna prostituta na rua, responde-lhe com firmeza.• “Renunciaste ao pudor do teu sexo; já não és uma mulher, o Homem já nada tem a ver contigo8”.
É tentador incriminar a velha misoginia judaico-cristã para explicar esta ideia de sexo feminino. Contudo, o pudor feminino é bem mais antigo. É omnipresente na Grécia antiga — imagina-se o Apoio de Belvedere a tapar-se com a mão como a Vénus Medicis? Pelo contrário, Platào vê mal as mulheres nuas no estádio: seriam ridículas, pensa ele, mas, como filósofo íntegro, acha que não deve ser proibido9
Repete-se o mesmo argumento especioso, sobretudo depois de Plínio, para declarar natural o pudor feminino: o corpo de uma afogada flutua de cabeça para baixo para esconder os orgàos sexuais, ao passo que o afogado flutua de costas10. Esta constatação (?) que não se procura pôr em causa irá transmitir-se de livro em livro até ao século XVII para encerrar solidamente a mulher no seu pudor.
O cristianismo primitivo vai acrescentar a este pudor preten¬samente natural a sua obsessão paranóica da sexualidade feminina. Durante quinze séculos vive-se à sombra da imagem de Eva, a tentadora, que suscitou a queda do homem. Até os médicos, no século XVI, estão de acordo quanto a definir um desejo mais feminino que masculino. O coito não é necessário ao homem para a perservação da sua saúde, demonstra Bailly11. Mas se a [fim da p. 11] mulher for privada de companhia masculina, expõe-se a perturbações graves. A prova, segundo ele, está na frequência das ~sufocações da matriz” nas viúvas, freiras e donzelas idosas. “E uma fome ou sede dessa parte... Chamo-lhe doença, que cessa com grande dificuldade sem a ajuda do macho.” O próprio Paré surge impregnado da concepção cristã de que a luxúria é fêmea. Se as fêmeas dos animais fogem do macho logo que estão fecundadas, explica, “é o contrário com as mulheres: pois elas desejam pelo deleite, não apenas pela espécie12”, Homem quer de experiência quer de tradição, é no entanto forçado a admitir, um capítulo adiante, que o desejo masculino é muitas vezes mais premente que o da mulher...
E nestas condições que se perpetua o pudor feminino, revestido de uma severa proibição sexual. No Juízo final, as mulheres ressuscitarão como homens, pensam os integralistas do tempo de Santo Agostinho: é o único meio de o homem, “nesse santo estado”, não ser tentado por essa carne funesta13! Elas não vão ressuscitar, afirmam os extremistas: não se diz que os corpos ressuscitarão na sua integralidade, por mais dispersos em peda¬ços que possam estar? A mulher terá portanto que desaparecer, para que Adão recupere a sua costela14...
O corpo feminino é negado no além, o seu prazer, na terra. Paradoxo de uma mulher que, sendo só desejo, se vê a recusar o prazer sexual. Ia Glef d’A mors, no século XIII, é o único exemplo que ousa erguer-se contra esta ocultação da sexualidade feminina e pedir ao homem que adie o seu prazer15. Não será seguido. Montaigne ainda pensa que o prazer feminino impede a concepção16.
O Renascimento, a despeito do seu amor pela carne, não põe em causa este pudor feminino. Mas confere-lhe um outro sentido. Ver uma mulher nua, segundo Montaigne, arrefece o ardor sexual em vez de incitar o macho à tentação. No reino de Pegu, explica Montaigne, os homens afastaram-se das mulheres para tomarem o prazer entre Si; aquelas, para tentarem os seus antigos companheiros, adoptaram vestidos decotados que nada dissimulavam — mas com isso apenas desgostaram ainda mais os homens dos seus corpos17! Viva, pois o pudor feminino que alimenta o desejo do homem.
No século XVIII, a laicização da cultura suscita uma crescente racionalização do pudor feminino. Rousseau, numa tentativa para justificar um pudor natural e exclusivamente feminino, invoca [fim da p.12] argumentos fisiológicos. Se a mulher está sempre pronta a receber o homem, e não o inverso, é portano necessário que a iniciativa pertença a este último. Que seria da espétie humana se se al¬terasse a ordem do ataque e da defesa? O assaltante escolheria ao acaso tempos em que a vitória seria impossível; o assaltado ficaria em paz, tendo embora precisão de se render, perseguido sem descanso, sendo então demasiado fraco para sucumbir; enfim, não se permitindo o poder e a vontade, sempre em discórdia, partilhar os desejos, o amor deixaria de ser o sustento da natureza, seria o seu destruidor e flagelo.” Um texto que faria uivar as mulheres emancipadas — mas quem sabe se Jean-lacques, ao descobrir a actual igualdade dos sexos, não veria aí a confirmação da sua teoria do pudor?
O pudor feminino vai ter uma vida dura, uma vez que há-de inspirar, em 1919, a engenhosa teoria do pudor de Merejkovski18. Para o poeta russo, foi a mulher a primeira a sentir a necessidade de ocultar os orgãos sexuais: limitou-se a obedecer ao instinto dos animais que fogem do macho antes do acasalamento, ou a imitar a precaução das orquídeas, que protegem os seus estames com um “avental”, impedindo desse modo a autofecundação. Objectivo profundo deste pudor feminino universal? Impedir o cruzamento consanguíneo. Com efeito, se o pudor não impedisse a mulher de acasalar com o primeiro macho que encontrasse, escolheria muito naturalmente os seus irmãos, não iria procurar aplacar os seus desejos na tribo vizinha... Hipótese sedutora, mas explicaria tanto o pudor masculino como o feminino e, apesar dos muitos anos que o autor pretende ter passado a apetfeiçoá-la, singularmente falha de rigor. Demonstra, de qual¬quer maneira, a persistência dessa concepção sexuada do pudor que rémonta à mais remota antiguidade e só incornpletarnente foi eliminada.
Pudores individual e social. Na praia ou na avenida, o fato de banho não tem o mesmo significado. O pudor individual, o que tem cada qual em mostrar-se (ou em ver-se!) nu ou pouco vestido reforça-se portanto com um pudor social que define, em função da época e do lugar, os limites tolerados à exibição. A moral, vestida de grego ou de latim, conhece também a distinção entre ethos (regras de conduta individuais) e habitus (regras de vida social). No domínio de que nos ocupamos, seremos portan¬to levados a distinguir pudor (individual) e decência (social). A fronteira entre ambos é por vezes subtil. As pioneiras do [fim da p.13] monokini tiveram a experiência: uma delas foi condenada em 1965 por ter usado no passeio público um traje que, a alguns metros dali, na praia, nada teria de chocante...
É para além destas distinções que se recorta o verdadeiro perfil do pudor: mais que uma reacção à nudez ou a uma determinada parte do corpo, é uma questão de tomada de consciencia. O pudor é um processo dinâmico, que deveria definir-se em termos de sociologia: só nasce a partir do momen¬to em que percebemos que estamos nus. O mito de Adão e Eva ganha aqui enorme actualidade: nada, a não ser uma concepção estatística do pudor, mudou entre a inocência original e a consciência nascida do fruto da árvore da ciência. A intenção de encerrar o pudor em regras estáticas tornou a legislação sobre a moralidade pública tão absurda quanto arbitrária. As fórmulas vagas que tentaram iludir o problema foram facilmente contor¬nadas: a partir de quando uma nudez é ou não chocante? A partir de quando o erotismo se torna pornografia, o à-vontade provocação, o nu artístico obscenidade?
Foi também o erro do naturismo anterior à guerra acreditar que, tirando a roupa, se reencontrava a inocência do paraíso perdido. Os homens que na Idade Média se banhavam nus não tinham a mesma ideia de pudor que os banhistas modernos, que sabem que, tirando o fato de banho, estão em contravençào às leis modernas e ao código penal. A moral dispõe de dois termos muito práticos para designar esta distinção: é declarado imoral aquele que viola as regras que ela dita; amoral, em contrapar¬tida, é aquele que as não conheçe. A despeito da minha repu¬gnância em atulhar a língua de neologismos supérfluos, falarei de “apudor” para designar esta ausência de pudor que, em certos domínios, precedeu a promulgação de éditos sobre decência pública; o “despudor” será uma violação consciente das regras do pudor. Entre estas duas praias estáticas que são a vergonha e o “apudor” vamos encontrar esse ponto de passagem, um pudor ou um despudor dinâmicos. Entre liberdade e escravidão há servi¬dão e libertação. São estes os processos que nos interessam, bem mais difíceis sem dúvida de traçar através de testemunhos neces¬sariamente estáticos.
Apesar do carácter tendencioso da sua análise, cabe a Scheler o mérito de ter posto em evidência o dinamismo do pudor. Os animais, refere, não têm pudor; é mesmo difícil imaginar um Deus pudico. O pudor, característico do homem, nasce, [fim da p.14] segun¬do o filósofo alemão, da consciência que o homem tem de ser um “ponto”, uma “passagem” entre duas ordens de ser e de essência, entre Deus e o animal, e de estar submetido, simulta-neamente, às servidões do corpo e às exigências do espírito. “E um sentimento em que se manifesta, sob a forma de uma tensao entre dois níveis de consciência, a indecisão das funções supe¬riores de escolha dos valores, em presença de objectos que exercem uma forte atracção sobre a tendência instintiva infe¬rior19”. Esta hierarquização dos valores, base de uma filosofia nietzscheana que anuncia o eugenismo nazi, surge na evolução das espécies com o desenvolvimento progressivo da consciência. As plantas mostram os seus orgãos sexuais no topo; os animais relegam-nos para o lado de baixo do seu corpo e os homens escondem-nos — sem dúvida na esperança de viretfi a tornar-se anjos sem sexo. Esta subordinação das actividades de reprodu¬ção aos interesses de um todo biológico corresponde à vitória do instinto de conservação individual sobre o instinto de conserva¬ção da raça.
Afinal, é assim que se nos apresenta o pudor, como perpé¬tuo combate entre instinto e razão, entre consciência e incons¬ciência, entre indivíduo e sociedade. Seria necessário estudar outros pares, muitos outros sentimentos vizinhos para o traçar perfeitamente. Em que difere o pudor da vergonha, da humil¬dade, da modéstia, da timidez? Como se demarca o despudor da impudicícia*? A título de hipótese de trabalho, definir-se-á o pudor como o sentimento que impede de realizar ou olhar uma acção (pudor corporal) ou a sua representação (pudor artístico) condenada por um código moral pessoal (pudibundaria) ou característica de uma dada época e lugar (pudor), por respeito para consigo próprio (pudor) ou para com os outros (decência).

As palavras e a história

O pudor, para o etimologista, nasceu no século XV120. A história do sentimento, porém, não se reduz à da palavra; por um lado, porque havia pudor muito antes de haver o nome; por outro, porque o próprio termo, quando apareceu, designava frequentemente outra coisa. [fim da p. 15]
Há que saber, portanto, que palavras, que hoje designam sentimentos muito diferentes do pudor, podem substitui-lo nos textos antigos que teremos que citar. Na Idade Média, “nojo” e “vergonha” são as mais correntes. Quando Chrétien de Troyes evoca uma rainha “envergonhada como donzela” é ao pudor feminino que faz nitidamente alusão. No século XVI, com o gosto de associar sinônimos, a parelha “sem vergonha e sem pudor” invade as páginas e é por vezes difícil separar um de outro dos sentimentos.
No século XVII, a “modéstia” faz furor entre as mulheres, enquanto os homens se contentam em ser “decentes”, “civis”, “honestos” (ou, o que — hélas! — é mais freqüente, indecentes, incivis e desonestos). “Pudor” e “pudicícia” estão ainda mal separados e ambos significam ainda castidade. São os primeiros dicionários que dão o sentido actual ao pudor (“boa vergonha”, “honesta vergonha”) e à pudicícia (acepção sexual), O pudor--castidade fica então enfeudado à modéstia soberana: esta “tem particular cuidado com o Pudor: não basta dizer que lhe põe pregas no corpete e o veste de saias compridas22? O termo “Modéstia” corresponde aqui ao sentimento moderno de pudor.
Na época em que vergonha podia designar pudor, o pudor, por sua vez, podia designar vergonha, O que não conserta lá muito bem as coisas. Se o francês antigo não conhece a pala¬vra, o latim medieval conserva toda a família dos derivados de pudor. Pudenda, pudor, designam ainda os orgàos “vergonhosos”; impudicus, designa o maior, o mais indiscreto dos dedos da mão. Nas suas poesias, os goliardos atacam impudenter [vergonhosamente] a corte romana23. E esta acepção irá manter-se até ao século XVII. Na linguagem preciosa, o pudor torna-se “o estigma da vergonha” e as maçãs do rosto “os tronos do pudor”24. Ao mesmo tempo, sob a influência do latim, o pudor transforma-se em sentido da honra. Aí está algo que serviria para resolver os dilemas de Corneille. Rodrigo, ao vingar o pai, dá provas de pudor; mas tem vergonha de ter matado o pai de Ximenes, é o seu pudor a manifestar-se de novo
Surpreendente: do século XVI para o século XVII, “pudico” e “decente” aplicam-se tanto a actos como a sentimentos. Joana de Navarra será declarada “impudica” por Brantôme por se ter casado quatro vezes; o novo casamento de Ogine, para Pasquier, é“coisa de muita vergonha e pudor”: não instituiu Deus o casa¬mento por “pudor, vergonha, honestidade25”? Em 1792, quando [fim da p. 16] as execuções à pressa exasperavam o público, o carrasco Sanson queixa-se dos entes “tranquilos” “porque o público continua a querer decência26”. A guilhotina passa a ter a decência que convém a uma viúva.
Francamente paradoxal, por fim: uma mulher nua no século XVII pode ser mais pudica que uma mulher vestida. Paradoxo aparente, uma vez que o pudor feminino é então “natural”. Desde Plutarco que se repete que a mulher, quando tira a camisa, veste o pudor. Num Dialogue de la Mode et de la Nature de 1662, esta última acusa a sua interlocutora de ter tornado as mulheres “de tal modo imperiosas e afectadas que nelas já se não reconhece qualquer traço de pudor27”. A afectação das preciosas, as mos¬quinhas, os ricos tecidos parecem muitas vezes mais perigosos que um decote um pouco audacioso.
Tais as principais ciladas a evitar quando se quer fazer a história de um sentimento e não de uma palavra. Quando se lida com uma realidade por vezes confusamente sentida, há que preservar-lhe a espontaneidade definindo-lhe rigorosamente o al¬cance.

Origens do pudor

A história de um sentimento só pode ser feita através da história de atitudes e de comportamentos. Mas estes são muitas vezes ambíguos. Deveremos pois penetrar previamente, para além do gesto e da reacção visíveis, nas motivações e nas mentalidades que lhe estão subjacentes.
Na origem de comportamentos pudicos encontram-se muitas vezes realidades sociológicas que escapam à história. Assim, através dos séculos, registram-se pudores de classe social. As classes populares são em geral hostis ao nu artístico. As escul¬turas do Renascimento, nomeadamente as de Miguel Angelo, encontraram mais hostilidade junto do povo que entre as autoridades civis ou religiosas e vão ter que ser vestidas para serem expostas em fontanários ou praças públicas. No século XVIII, são os «pequeno-burgueses” quem mais se perturba com as pinturas indiscretas dos artistas da corte. Napoleão III exige que sejam expostas num Salão dos Rejeitados as obras censuradas pelo [fim da p.17] pudibundo júri do salão oficial e, ainda hoje, a censura popular é bem mais severa para com os filmes ousados do que a tesoura de Anastasia.
Inversamente, as classes dominantes, aristocracia e depois burguesia, mostram-se hostis ao nu quotidiano. São as autoridades que condenam os banhos nus, fecham os bordéis, regula¬mentam os gestos permitidos e os proibidos. Fácil é ver nesta oposição o resultado de uma diferente educação artística e do acesso ao segundo grau que oculta com uma aura artística a mais provocatória nudez. A nudez de primeiro grau, a que o homem da rua adere com mais facilidade, parece mais facil¬mente vulgar àqueles que se gabam de a ter ultrapassado.
Em todas as épocas, enfim, a marginalidade fala a linguagem da nudez. A provocação é obra dos heréticos nos séculos de absolutismo religioso: adamitas, abelitas, turlupianos, abandonam a roupa e a religião oficial. Nos séculos da moral burguesa, os artistas, os hippies recebem o testemunho; num mundo cada vez mais industrializado, os naturistas confundem nudez com retorno à natureza. A história da nudez voluntária não interessa ao pudor, não mais que essa outra forma de meter entre parênteses o nu que é a arte erótica. Para o meu trabalho, atenderei apenas às mentalidades partilhadas pelo maior número de pessoas, o que não impede que se consagre um apêndice (v. p....) aos princi¬pais movimentos nudistas que atravessaram a história. Alguns tiveram efectivamente uma certa influência sobre a evolução das mentalidades comuns.
Há também que dar conta das causas contingentes que em diversas épocas acarretaram reacções próximas do pudor sem na realidade o serem. Assim, o encerramento das estufas de banho e a proibição da prostituição no século XVI devem tanto ao apa-recimento da sífilis como à ocultação do corpo após o concílio de Trento. As mesmas causas engendram os mesmos efeitos, o que em 1985 se chama a ~nova castidade~~ é contemporênao de uma nova doença sexual, a Sida, e as modernas saunas tiveram uma sorte idêntica à dos velhos banhos. Sem querer reduzir exclusivamente a evolução das mentalidades à das condições materiais, registemos pelo menos a sua interacção: se Francis-co II, num ano de reinado, conseguiu a reforma da prostituição que São Luís não lograra realizar, foi porque estavam então reunidas as condições da sua aceitação.
Podemos, porém, para lá dos factos sociais e das causas [fim da p. 18] contingentes, procurar as origens profundas do sentimento de pudor. A isso se têm dedicado os filósofos desde há três sé¬culos.
Quando se começou a reflectir neste fenómeno, no século XVI, bastou declarar natural o pudor. Contudo, a partir das primeiras viagens intercontinentais, viu-se que muitos povos viviam muito naturalmente sem conhecerem o pudor e alguns, corno Montaigne, como Cyrano de Bergerac, ousaram colocar franca¬mente a questão: porquê ter vergonha de dar a vida a não ter de a tirar? Nessa altura, a sua voz facilmente é abafada. Os “selvagens” que não conhecem o pudor não receberam a Graça e seria ofensivo pôr em causa comportamentos cristãos para seguir o seu exemplo. Na primeira metade do século XVIII, esta opinião está ainda suficientemente viva para que Montesquieu consagre um capítulo do Espírito das leis ao “pudor natural”. Claro que é forçado a admitir que esta lei pretensamente natural não é universalmente respeitada: mas “quando a potência física de certos climas viola a lei natural dos dois sexos e a dos seres inteligentes, cabe ao legislador fazer leis civis que forcem a natureza do clima e restabeleçam as leis primitivas28”. Eis portan¬to uma lei natural imposta pelo legislador...
Este paradoxo testemunha urna nova abordagem do pudor numa época em que as viagens ultramarinas se banalizam e em que se ousa aplicar aos dogmas católicos o método cartesiano. Os comentários da Bíblia inspiram a Voltaire reflexões sobre o pudor: o vestuário teria nascido da necessidade de protecção contra o frio e, para as mulheres, da de reterem as suas mens¬truações29. As viagens de Bougainville dão a Diderot um pretexto para abordar o assunto: para ele, o pudor, teria nascido do instinto de propriedade. “Logo que a mulher se torna proprie¬dade do homem e a fruição furtiva de uma rapariga é olhada como roubo, vemos nascer os termos pudor, recato, bom comportamento, virtudes e vícios imaginarios30.”
O movimento filosófico do século XVIII contribuiu portanto em muito para destruir a ilusão de um pudor natural. As mulheres virtuosas, como a Julie de Rousseau, queixam-se: “O ata¬que e a defesa, a audácia dos homens, o pudor das mulheres já não são convenções, como pensam os teus filósofos, mas instituições naturais a que é fácil dar razão e de que facilmente se deduzem todas as outras distinções morais3K” Facilmente imaginamos o filósofo da natureza dilacerado entre o coração e [fim da p.19] a razão: para resolver este conflito interior, Rousseau acaba por declarar o pudor natural à espécie humana, mas individualmente aprendido32.
Pudor convencional, portanto, neste final do século XVIII. Seja. Mas porquê? De uma assentada, a convenção é posta em relação com as necessidades da reprodução. “Os desejos velados pela vergonha apenas se tornam mais sedutores; ao perturbá-los, o pudor inflama-os”, afirma a Encyclopédie. Opinião fielmente reproduzida por Balzac, depois por Stendhal, ardente partidário de um pudor aprendido33.
E, contudo, cometendo o mesmo erro, o de reduzir o pudor à sua componente sexual, que os filósofos do século XX regressam ao pudor natural. Agora, a moda é recolocar a antropologia no contexto mais vasto da etologia. Voltamos ao pudor das plantas e dos animais: o pudor deixa de ser declarado psicolo¬gicamente natural, como no século XVII, é-o fisiologicamente. E o avental das orquídeas de que fala Merejkovski, é o princípio regulador de Scheler: ao fazer subir o sangue ao rosto (quando se cora), retira-o dos órgãos sexuais.
Scheler virá a ser o principal adversário do pudor aprendido. No termo de uma penetrante análise, distingue três funções do pudor, cujas implicações evocam a lenta eclosão do racismo e do eugenismo na Alemanha de 1913. A função primária do pudor, segundo Scheler, é permitir a formação do instinto sexual inibindo moralmente o prazer solitário. Teoria que recorda a de Merejkovski sobre o incesto, mas aqui de um ponto de vista masculino, pois tanto Merejkovski como Scheler invocam o mesmo testemunho, tão vago, “dos etnólogos”, nas duas direcções opostas: para aquele, as mulheres são as primeiras a cobrir os seus órgãos sexuais nas sociedades primitivas; para o segundo, são os homens... E curioso vê-los tirar conclusões em tudo paralelas destas pré-missas contraditórias.
Começa-se a dar ouvidos à função secundária que Scheler confere ao pudor: essa “auto-protecção da vida nobre contra a vida vulgar” impede, por exemplo, o casamento de uma rapari¬ga pudica com um homem desavergonhado, que verá no pudor da sua prometida um obstáculo à realização imediata do seu desejo. Nesta perspectiva, o pudor é característico da raça alemã já que é a mais pura... Só desapareceu na época em que os nobres .teutões contraíram casamentos por dinheiro com “os ele¬mentos mais vulgares do povo”. Resta apenas completar o qua¬- [fim da p. 20] dro. A função terciária do pudor, no seio do casal legítimo, impede-o de tomar o acto sexual como fim em si ou conferir-lhe finalidade. O “nobre espírito germânico” (entenda-se: o pudor) opõe-se deste modo à moral sexual judaica, dominante durante vinte séculos na sociedade ocidental. A ligação entre o acto sexual e a reprodução, que Scheler considera uma ofensa ao pudor, equiv~Je- a um “utilitarismo específico” que o filósofo con¬sidera “a essência do espírito judeu”! Sabemos aonde conduzirão tais teorias. Pena é que elas manchem uma das mais subtis análises do pudor que chegaram até nós.
Que nos ensina este apanhado das teorias do pudor? Primei¬ro, a desconfiarmos das teses demasiado sedutoras e sobretudo demasiado redutoras. Vimos que o pudor sexual, embora continue a ser o mais corrente, não deixa de se integrar num pudor mais geral, que engloba tanto sentimentos como actos, atitudes, situações determinadas. Vimos também que o pudor nasceu em estreita correlação com a vergonha. Em vez de invocar a neces-sidade sexual, incapaz de explicar o pudor das lágrimas ou dos sentimentos, é preferível inverter o problema. O pudor surge então como uma vergonha antecipada, a recusa preventiva do que é considerado fraqueza ou ridículo. O homem civilizado não acha ridículo chorar. Porque não achará ele igualmente ridícula a perturbação que sobre ele exerce o encanto de uma mulher, perturbação que só consegue dissimular cobrindo a parte do seu corpo onde ela é mais visível? O pudor permanece como um produto da civilização, onde muitas vezes convém andar mascarado para obter o que quase se despreza. A experiência depressa ensina que mais depressa se obtêm os favores de urna mulher fingindo que se os não deseja. Por isso, é necessário que as palavras não sejam desmentidas por gestos involuntários.
Não tenho a pretensão de resolver em algumas páginas um problema tão complexo. Simplesmente, é necessário prevenir contra certas interpretações redutoras de um fenómeno que abarca praticamente todos os domínios da vida social. A análise histórica permitir-nos-á dar uma dimensão até então inexplorada ao pudor e tentar, como conclusão uma análise mais rica. [fim da p.21]

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