Mídia e política no Brasil

ABREU, Alzira A. de Abreu; LATTMAN-WELTMAN, Fernando e KORNIS, Mônica A. Mídia e política no Brasil. Jornalismo e ficção. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2003. 184p.

Jornalistas e jornalismo econômico na transição democrática

A autora trata a mídia como um ator privilegiado do sistema político, destacando que essa visão ainda é rara nas ciências sociais. “Embora a participação da mídia em todos os acontecimentos políticos, econômicos, sociais e culturais seja incontestável, parece evidente a dificuldade de integrá-la nas análises do sistema de poder e nos estudos de práticas profissionais” (p.13). Afirma que, uma vez que as ciências sociais foram constituídas principalmente no século XIX, a base de suas teorias para explicação da sociedade privilegia parcamente os meios de comunicação.
Weber afirma a necessidade de uma sociologia da imprensa, na qual haja um interesse sobre todo o processo do fazer notícia. “É preciso se perguntar sobre a origem e a formação do jornalista moderno, e o que se espera dele” (p.14). Já afirmava sobre o papel relativo do jornalista de acordo com o partido ou a natureza do jornal, ou seja, questionava a noção de neutralidade e imparcialidade sobre a qual uma parte considerável da imprensa tenta construir sua imagem.
Objeto da pesquisa de Abreu é “analisar o perfil e a trajetória de vida dos jornalistas brasileiros em atividade nos jornais do Rio de Janeiro, São Paulo e Brasíliam e entender a transição política brasileira a partir do papel desempenhado pela imprensa escrita nesse processo”. Abreu reconheceu no jornalismo econômico o vetor das mudanças que ocorreram na imprensa no regime militar e que, posteriormente, transformaram o perfil dos jornalistas e sua forma de construir a informação (p.14). Este perfil foi conformado pelas transformações do Brasil nos últimos 30 anos do século XX e que começou sua carreira em plena ditadura militar, quando não havia liberdade de expressão e a imprensa estava sob os olhos da censura dos órgãos de segurança.
A democracia só viria quando as condições para sua implantação fossem alcançadas, ou seja, a liberdade de expressão e fontes alternativas de informação. “São estes, entre outros, os requisitos para que um grande número de pessoas tenha igual oportunidade de controlar e contestar a conduta do governo e para que seja possível o exercício da oposição”. Estas condições, porém, estão sujeitas ao mercado da mídia, como anunciantes ou acionistas de empresas que financiam as páginas dos jornais, o poder dos donos dos jornais e o poder dos leitores. Além disso, é preciso considerar a aceitação dos jornalistas de determinados valores e ideologias que influenciam a seleção e o tratamento da informação (p.15).
O jornalismo econômico, criado no regime militar, levou muitos jovens a ingressarem na carreira e foi, nas editorias de economia que muitos jovens jornalistas se organizaram para fazer oposição ao regime. No entanto, as motivações políticas foram se distanciando destes profissionais ao longo do processo de redemocratização do país.
“Alguns jornais como O Globo , aprofundaram o processo de modernização que estava em curso; outros, como a Folha de S. Paulo, incentivados por grupos de dentro do regime, adotaram uma nova posição diante da conjuntura de liberalização política e tornaram-se críticos do regime. A partir de então a imprensa atuou como mediadora entre grupos representativos da sociedade civil e os militares, em defesa da redemocratização” (p.16).
Estes jornalistas das editorias econômicas tiveram influência política, catalizando as vozes discordantes do regime e as reivindicações de vários setores sociais comprometidos com a volta da democracia. É um momento em que o jornalista está consciente de sua função social, dando sentido aos acontecimentos.
“Informar é dar sentido, o que significa que o jornalista não escolhe essa função; ela é dada pela própria atividade da informação. Ao exercer o jornalismo, o jornalista é um ator social que tem responsabilidade pela seleção e pela construção da informação; é ele que seleciona, hierarquiza e dá sentido ao acontecimento que se torna conhecido e inteligível. Seu trabalho de construção da realidade é resultado de um certo tipo de olhar, da utilização de uma forma particular de discurso, e para ser aceito deve ser percebido como muito próximo do real.” (p.17).
[…]
O jornalismo econômico

Esse tipo de jornalismo nasceu na década de 1970. Até então era voltado para informações dos indicadores econômicos e financeiros, preços de produtos e chegada e saída de navios. Não existiam jornalistas especializados em análise econômicas nas redações, nem acompanhamento do desempenho da economia (p.23).
Com o grande desenvolvimento industrial no período militar – o milagre econômico – a modernização dos meios de comunicação foi, para os militares, uma estratégia política vinculada à ideologia de segurança nacional. O projeto de integração nacional foi estimulado a formação de grandes redes, que exigiam um grande investimento. Nesse período, os meios de comunicação dependiam em grande medida da publicidade para sobreviver e os maiores anunciantes eram as empresas estatais e instituições governamentais (p.23).
A autora lembra que os maiores e mais importantes órgãos de imprensa do país tiveram um papel decisivo na queda do regime constitucional em 1964, ao apoiarem os militares. Entre eles estavam O Estado de São Paulo, Gazeta Mercantil e O Globo, cujos proprietários se identificavam com as idéias econômicas e o ideário liberal da União Democrática Nacional (UDN).
“Antes de 1964, os jornais alertavam para os perigos do ‘estatismo’ na economia e das restrições ao capital estrangeiro, o que impediria o país de avançar no seu processo de industrialização. Mas, diante do ‘perigo comunista’, aceitaram o reforço do poder estatal como meio de evitar a perda de controle do Estado para os grupos de esquerda. Abdicaram de suas idéias e crenças na liberdade individual e aceitaram a centralização do poder nas mãos dos militares como única alternativa para impedir a ‘subversão’ ou a ascensão dos grupos de esquerda ao poder” (p.24).
Alguns jornais se destacaram contas as “reformas de base” do presidente João Goulart (1963/64) e poucos foram contra o regime militar. Uma das exceções foi o Última Hora. Houve um primeiro apoio ao governo instalado, mas que logo foi deixado de lado pela imprensa com o fim da liberdade de expressão e da perseguição das liberdades políticas, sindicais e intelectuais, começando a denunciar as arbitrariedades cometidas. Dentre as estratégias utilizadas pelos jornais para denunciar a censura foi colocar receitas culinárias absurdas, poemas, espaços em branco ou figuras de demônios no espaço censurado (p.24).
Ao mesmo tempo em que exerciam uma forte censura, financiavam a modernização da maioria dos jornais que permaneceram no mercado até hoje através da construção de prédios modernos, de financiamentos em bancos e instituições estatais para importação de maquinário.
O jornalismo econômico servia para a divulgação da política econômica do governo, de suas conquistas e avanços, pois a economia se tornara uma forma de legitimação política para os militares (p.25).
Foi nesse período que se deu uma grande projeção e influência dos economistas, espaço este que antes era conferido aos políticos. Como resultado, as editorias de economia dos jornais cresceram em prestígio e espaço, introduzindo inovações que se estenderam para toda a redação. Os noticiários políticos foram substituídos pelos econômicos ou por notícias internacionais. Os empresários do setor jornalístico investiram nesse momento na profissionalização dos jornalistas, entrando no mercado especializado em economia e voltados para um público de tomadores de decisão, tecnocratas e formadores de opinião. [Esta informação é bastante importante, pois constitui a criação de um imaginário a respeito de um ‘jornalismo sério’ no Brasil, em contraposição à imagem construída no início da imprensa na Europa como coisa para mulheres e tolos – ver p.19 tese O jornalismo envergonhado]. (p.26).
No entanto, mesmo os temas econômicos tinham sua parcela de censura, como por exemplo, abastecimento, política salarial, petróleo e oposição sindical. Essa censura era exercida sem que se perceba um critério claro. Era feita de forma aleatória, transmitindo medo e insegurança para todos os que trabalhavam na imprensa (p.27).
A linguagem utilizada para as notícias econômicas era hermética, de difícil compreensão para o público leitor. Além disso, aliava-se o fato de que a notícia econômica é de outra natureza, com muitos dados numéricos e estatísticos
“Muitas vezes os jornalistas reproduziam essas informações tal como lhes eram transmitidas, sem decodificá-las, somente fazendo algumas adaptações para a linguagem comum.” (p.28)
Devido a isso é que Carlos Lacerda cunhou o termo “economês” para se referir a esse tipo de linguagem.
“A utilização dessa linguagem hermética, de expressões estrangeiras, ocorreu não só porque os economistas e tecnocratas não traduziam inúmeros termos técnicos de língua inglesea, mas também porque os jornalistas não estavam preparados para traduzir essa linguagem técnica para a linguagem do leitor comum”. (p.28).
Isso só reforçava a destinação das notícias econômicas para um público leitor bastante especializado, familiarizado com esses termos.
As fontes de informação para este tipo de jornalismo eram poucas, limitando-se a técnicos e assessores de órgãos estatais ou os assessores do ministro da Fazenda.
“Não havia espaço na imprensa para órgãos representativos dos trabalhadores, sindicatos, federações e confederações. Assim, as fontes de informação, além de reduzidas, eram controladas, e os jornais não passavam de uma ‘espécie de diário oficial, mais bem elaborado, das decisões governamentais.” (p.29).
A profissionalização dos jornalistas se deu quando o mercado dos meios de comunicação ampliou sua demanda e foi implantada uma grande indústria cultural. “Surgiram então as lógicas de diferenciação social, quando se organizou o espaço do trabalho e se limitou a concorrência, com a exigência de diploma universitário de jornalismo e dedicação à atividade em tempo integral, com a regulamentação da profissão e a codificação das regras de conduta” (p.30) .
Dentre os jornais que se destacaram nesta época e ainda mantêm grande influência política sobre a opinião pública nacional, além de terem servido de modelo para o restante da imprensa do país, principalmente através de suas editorias de economia, estão O Globo, Jornal do Brasil (RJ) e Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e Gazeta Mercantil (p.32).
Merece destaque também nessa época a chamada imprensa alternativa que, durante a década de 1970 principalmente, constituiu um espaço de críticas ao modelo econômico e às violações dos direitos humanos. A imprensa alternativa surgiu quando se evidenciou o fracasso da luta armada e foi através dela que muitos jornalistas, intelectuais e ex-militantes procuraram construir um espaço alternativo e legal de resistência ao regime militar. Tinham um formato de tablóide com tiragens irregulares e eram vendidos em bancas de jornal ou circulavam entre integrantes de partidos ou movimentos de esquerda clandestinos. Foi bastante útil aos partidos de esquerda que não podiam divulgar suas posições políticas devido à censura e que a utilizavam para isto. Dentre os jornais alternativos que se destacaram estão O Pasquim, Opinião, Movimento, Em Tempo, Coojornal e Versus (p.35).
Era na imprensa alternativa que se podia encontrar matérias sobre as condições de vida dos trabalhadores, situação das empresas, poluição ambiental etc.
Nos jornais comerciais não era bem aceita a concessão de um espaço aos empresários, pois ainda predominava uma visão dominante na década de 1960 “de que noticiar negócios era publicar matéria paga disfarçada ou tentar obter recursos de empresas com ameaças de revelações negativas sobre os empresários e seus negócios” (p.39).
“Nos anos 1940 e 50, os jornalistas de prestígio não aceitavam fazer matérias sobre empresas e empresários, já que esse tipo de jornalismo era malvisto, e os que assim agiam eram vistos como corruptos. Mas, já nos anos 1970, sob a influência do jornalismo norte-americano e dos efeitos da censura, os jornais brasileiros perceberam que a economia vista do ângulo das empresas também era notíca” (p.39).
portanto, era com desconfiança que os empresários reagiam, pois esperavam que as informações dadas sobre suas empresas fossem cobradas depois. Existia também a dificuldade e o temor de se dar declarações que fossem mal interpretadas pelo governo como críticas à política econômica e, conseqüentemente, de sofrer retaliações posteriores, pois os empresários eram bastante dependentes do financiamento estatal (p.39).
[…]
A partir de 1973 a legitimidade do sistema autoritário começou a se deteriorar. Os militares procuraram então dar outro rumo à política brasileira. Ernesto Geisel e Golbery do Couto e Silva formularam uma estratégia de abertura política “lenta, gradual e segura”. Este projeto visava recuperar o apoio da sociedade para a “revolução” e limitar a autonomia da comunidade de segurança que ameaçava a própria instituição militar de desagregação. Além disso, o perigo da luta armada havia sido eliminado. Para concretizar este projeto era preciso permitir eleições, revitalizar o sistema partidário e liberar a imprensa com o objetivo de recuperar a legitimidade política (p.45).
O início do governo Geisel coincidiu com a crise do petróleo. Houve então uma redução no ritmo do crescimento econômico, uma retomada da inflação e aumento da dívida externa, no entanto a política econômica adotada não acompanhou esta desaceleração mundial. Através do II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), projetava-se uma taxa de crescimento de 10% ao ano, utilizando como estratégia a substituição das importações de bens de capital e insumos básicos, como meio de fortalecer o capital nacional e as estatais.
Nesse contexto, a pauta das editorias de economia dos jornais, fazendo com que questões como o desemprego, a pobreza, a distribuição de renda, em outras palavras, o questionamento do modelo que havia sido implantado a partir de 1968, emergissem. Durante o regime militar estas editorias formaram seus quadros, capacitando-os para o acompanhamento das decisões governamentais, e que haviam se aproximado dos economistas das universidades ou de instituições de pesquisa como Ipea, IBGE, FGV etc. Este grupo passou a atuar na Associação dos Jornalistas de Economia e Finanças (Ajef). Esta entidade teve um papel importante no regime militar, procurando desempenhar um papel de “pool institucionalizado de informações”.
“A convite dela, personalidades da área econômica almoçavam com os jornalistas, davam entrevistas, participavam de seminários e debates públicos, o que geravam notícias e funcionava como um canal de atração ara que representantes do governo falassem de determinadas questões e passassem informações para um maior número de jornalistas” (p.47).

Foi através da Ajef, e de outras associações semelhantes criadas posteriormente, que muitos jornalistas de economia e finanças, hoje notáveis, se especializaram e se qualificaram.
“Com a redemocratização do país, essas associações deixaram de existir. Perderam o objetivo, na medida em que se ampliaram as fontes de informação e que deixou de ser um privilégio de alguns o acesso aos responsáveis pelas decisões político-econômicas do país” (p.48).
As editorias de economia adotaram outras estratégias para ampliar as críticas ao modelo econômico como a utilização de análises e economistas americanos sobre a concentração de renda no Brasil que havia aumentado durante o milagre econômico e trouxeram para as páginas dos jornais os economistas do Ipea e das universidades, divulgando os resultados de suas pesquisas sobre economia brasileira do pós-1964. É verdade que se costumava não divulgar o autor do estudo. Outras fontes também foram importantes para esta crítica como a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios do IBGE e o índice de preços da FGV.
“A reorganização da Ajef, a opinião dos economistas, a utilização de dados e índices de preços foram recursos empregados pelos jornalistas para atenuar as pressões repressivas da direção dos jornais e da censura. Colocar ‘outros falando’ era não assumir as próprias opiniões e dar à ‘objetividade’ um papel de ritual estratégico. Este, na definição de Tuchman, é constituído por um conjunto de procedimentos rotineiros, automáticos, obrigatórios, que funcionam como um escudo protetor contra as críticas. O ritual estratégico no caso brasileiro, funcionou como protetor dos jornalistas contras os riscos a que estavam expostos no exercício da profissão” (p.50).
Nos anos 1970, os empresários apoiaram o projeto de abertura dado início pelo Gen. Geisel. O presidente acreditava em uma vitória eleitoral, mas a queria realizada por meios legítimos. Seria a confirmação do apoio popular à obra da Revolução. Portanto, arrefeceu-se o controle da censura e deram-se garantias à oposição desde que ela “aceitasse de bom grado as evidências da sua futura derrota” (p.51).
Alguns jornais, como O Globo, viu nessa ocasião a oportunidade para ampliar o seu público leitor. Desse modo, como afirmou o jornalista Roberto Marinho em 1974, embora o jornal continuasse a apoiar a Revolução, era preciso que ele fosse lido não só por seus partidários, mas também por seus adversários. O jornal abriu então suas páginas para noticiar a campanha do MDB. A abertura política serviu também para O Globo reformular sua imagem, usando estratégias, através de sua editoria de economia, para criticar o modelo econômico do regime e a política do país (p.51-52.)
Nesse meio tempo, ocorreu uma mudança de atitude dos empresários frente aos debates promovidos pela imprensa. Talvez essa mudança se explique, primeiramente, por uma maior centralização da política econômica na presidência da República e o fortalecimento do setor público a partir do governo Geisel. Um outro ponto foi a perda, por parte do empresariado, da participação nas decisões do Conselho de Desenvolvimento Econômico (CDE) e cresceu a interferência do Estado na economia. Além disso, houve um incentivo de descentralização de indústria e a pressão de empresas internacionais para se instalarem no país.
A partir daí o empresariado nacional tornou-se crítico em relação à política econômica do governo, unindo-se, a partir de 1976, a outros setores da sociedade civil para questionar a continuidade do regime autoritário-militar. Mas, o principal fator que os levou a isto, foi que a imprensa e alguns jornalistas das editorias de economia os chamaram ao debate, convidando-os para entrevistas, mesas-redondas e seminários (p.54). [espaço público e político e como a imprensa teve um papel fundamental na manutenção do debate no Brasil neste momento – fazer uma conexão com Sennett e Boltanski].
Obviamente existiam as diferenças ideológicas entre os jornais, como por exemplo O Globo, que distanciou-se dos demais jornais, adotando posições nacionalistas e defesa de uma maior participação do estado na economia. Ao mesmo tempo, quando os sindicatos dos metalúrgicos do ABC paulista iniciaram uma campanha para reposição salarial, em 1977, e as greves posteriores, o jornal deu cobertura total, através de sua editoria de economia, chegando a ocupar seis páginas.
“O Globo apresentou críticas ao regime militar e à sua política econômica muito mais contundentes do que os outros jornais de grande circulação, exatamente por ser considerado um jornal favorável ao regime, um jornal de direita. Por isso não despertava a ira dos censores com a mesma intensidade dispensada aos outros jornais (p.58).
A imprensa, de um modo geral, criticava o governo por um lado e, por outro, apoiava suas iniciativas voltadas para a redemocratização. Inclusive, o grupo ligado a Geisel utilizou-se da imprensa para enfrentar setores militares contrários à abertura política e à suspensão da censura (p.58).
A partir deste momento tornou-se prática pessoas ligadas ao poder (ministros, chefe do gabinete civil, generais etc.) divulgarem informações em off, preferindo não serem citados nominalmente. Essa prática é corrente até hoje, gerando uma deformação no jornalismo, pois passou-se a atribuir prestígio a jornalistas devido ao acesso que eles tivessem às notícias em off. Ao mesmo tempo, passou-se a valorizar tanto estes jornalistas, que lhes era dispensado a citação das fontes e informantes (p.59).
Durante esse tempo do início da abertura democrática, alguns jornais tornaram-se mais críticos, abrindo a discussão sobre o modelo econômico adotado no regime militar. Mas isso não significara o fim das pressões para mudar o conteúdo de suas informações. É o caso do Jornal do Brasil que foi ameaçado de ter suspensa a publicidade governamental, que representava cerca de 15% da receita total do jornal (p.60).
Outros jornais, como a Gazeta Mercantil, realizaram fóruns de debate sobre os problemas nacionais com a participação do empresariado. “A atuação da Gazeta Mercantil é um dos exemplos de como a imprensa participou do processo de redemocratização através dos empresários de comunicação e dos jornalistas” (p.61).
A Folha de S. Paulo foi um dos principais diários envolvidos na abertura política, servindo como mediadora do processo. Ela foi escolhida pelo Gen. Gobery do Couto e Silva para fazer frente a O Estado de S. Paulo, pois segundo ele, não seria conveniente nem interessante para o governo a existência de apenas um jornal forte em relação à opinião pública no estado de São Paulo. “Para o governo, a imprensa seria uma importante aliada e deveria ser mais bem tratada, mas era desejável que existisse competição e a não-dependência a poucos órgãos de comunicação” (p.61).
Outros acontecimentos tornaram-se ponto de inflexão em relação a imprensa brasileira. A morte do jornalista Wladimir Herzog, diretor de telejornalismo da TV Cultura, em 1975, nas dependências do DOI-Codi foi certamente um deles. Sua morte provocou enorme protesto e sua missa de sétimo dia tornou-se uma manifestação contra os métodos repressivos do estado. No ano seguinte, uma outra morte em circunstâncias semelhantes do operário Manoel Fiel Filho. Este último fato provocou a demissão sumária pelo Gen. Geisel do comandante do II Exército, Gen. Ednardo D’Ávila, sem consulta prévia ao ministro do Exército.
A partir desse momento, alguns jornais passaram a agir com maior desembaraço em favor da redemocratização, da liberdade de expressão e da anistia, como foi o caso da Folha de S. Paulo, mesmo tendo ainda alguns tropeços e desavenças com o Exército (p.63).
A partir dos anos 80, a editoria de economia da Folha, sob a chefia de Joelmir Beting, prosseguiu com um debate sobre a distribuição de renda, a continuidade do processo de industrialização e seu financiamento, e também sobre o papel e o futuro do sindicalismo. Prosseguiu então na direção iniciada por Cláudio Abramo nos anos 1970, mantendo em seus quadros colaboradores de todas as tendências políticas.
“Durante todo esse período, a Folha procurou atender às reivindicações da sociedade civil por liberdades democráticas, respeito aos direitos humanos, implementação da anistia, e, mais adiante defendeu a convocação da Constituinte e participou do movimento das Diretas Já em 1983/84” (p.64).
Com a redemocratização, os jornalistas da área econômica continuam a gozar de grande prestígio nas redações, fruto das lutas travadas nesse período, e a editoria de economia de todos os jornais é vista ainda como a “editoria nobre” e se destina principalmente àqueles que têm poder de decisão, poupadores e investidores. Tornou-se uma área bastante diversificada na imprensa brasileira e não apenas em jornais. Através de suas assessorias de imprensa, as empresas fazem lobbies, reconhecendo a necessidade de uma comunicação competente frente aos centros de poder e de decisão, com o congresso, com o público consumidor etc. (p.65).
Um outro período em que a editoria de economia dos jornais foi de fundamental importância foi na década de 1980, durante os vários planos econômicos para estabilização econômica e introdução de novas moedas que alteravam a vida dos cidadãos. Os jornalistas de economia tinham então o papel de explicar as novas regras e as informações divulgadas pelo governo para todas as camadas da população.
“Nas redações dos jornais, cabia aos jornalistas da área econômica explicar ao público leitor como agir com relação às conversões exigidas pela nova moeda e como se adaptar às regras que cada plano introduzia. As redações dos jornais tiveram que se organizar para responder aos questionamentos, às dúvidas de seus leitores, e para traduzir uma linguagem muitas vezes hermética dos conceitos econômicos para o leitor não-especializado, mas que era afetado por todas essas decisões” (p.67).
Com a redemocratização veio também uma certa desilusão política com os ideais defendidos até então pela esquerda, agravada pela desagregação do regime comunista e o fim das utopias de construção de um mundo socialista. A partir da década de 1990, essa atitude de desilusão e desengajamento político, foi acompanhada por atitudes apolíticas. O papel dos intelectuais como mediadores das idéias de mudança deixou de existir e o cidadão passou a ter pouco interesse de participação em partidos ou movimentos, ou mesmo através de uma arte mais engajada (p.68).
Um novo sujeito político surgiu nos anos 1990: os excluídos. Mas os movimentos dos excluídos “não fazem parte de um projeto de transformação da sociedade para resolver os problemas que impedem o acessod e uma parcela da população ao emprego, à terra, à educação, a salários dignos e aos direitos assegurados na Constituição” (p.69). Bernard Poulet (apud abreu, p.69), analisando as associações surgidas na França nos anos 1990, mostra que essas novas formas de mobilização social combinam bons sentimentos, moralismo, mídia e direitos do homem. Embora esses movimentos franceses pareçam ser diferentes, por definição, daqueles surgidos no Brasil como o MST, os sem-teto, têm em comum o fato de terem surgido quando “a televisão se converte(u) em meio de massa, tornando possível mobilizar diretamente a solidariedade do público para uma causa humanitária e urgente e permitindo ganhar a simpatia – e os donativos – da opinião pública com um pequeno número de militantes” (p.69). Essas novas organizações não pertencem a partidos, nem sindicatos, nem às antigas associações filantrópicas e têm o discurso voltado para a afirmação dos direitos do cidadão.
Nesse momento começa a prevalecer nos profissionais da imprensa escrita, principalmente, o conceito de utilidade social da mídia, que tem como idéia a utilização da ação jornalística para servir aos interesses do cidadão, responder às preocupações dos seus leitores (jornalismo cidadão).
“Nos Estados Unidos essa mesma idéia apareceu no início dos anos 1990, com o conceito de ‘jornalismo público’ (public journalism), que atribui aos profissionais da mídia o papel de ajudar os leitores, ouvintes ou telespectadores a enfrentar as dificuldades da vida cotidiana e de dar respostas às expectativas da população em relação a sua região, sua cidade ou seu bairro, através do estímulo à cultura cívica. Esse jornalismo significa, em parte, uma resposta alternativa à concorrência entre os meios de comunicação” (p.69).
Os empresários de mídia perceberam que uma das formas de se atrair público é denunciar o não-atendimento das necessidades básicas do cidadão, as más condições de saúde e do atendimento nos hospitais, nas escolas, o desrespeito ao consumidor, falsificação de medicamentos e de qualidade nos produtos etc. A mídia procura nesse caso assegurar a transparência das instituições, funcionando como um contrapoder.
“Ao se aproximar da vida cotidiana dos cidadãos, de suas dificuldades, e ao tentar ajudá-los, a mídia estaria consolidando o tecido democrático. É verdade que a denúncia de escândalos faz vender jornais e subir a audiência da televisão e do rádio. Isso dá lucro, mas permite ao cidadão, mesmo que de forma precária e intermitente, o acesso à justiça. A imprensa torna-se uma espécie de substituta da instituição judiciária em que a opinião é que julga. Nesse caso, poder e contrapoder se entrecruzam” (p.70).
A conclusão a que chega a autora em sua pesquisa sobre o jornalismo hoje é que trata-se de um jornalismo “apartidário, despolitizado e pluralista”, no qual atuam profissionais técnicos que vivem uma crise do engajamento.

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