Sobre as massas

Assim também é a informação em relação às massas. Qualquer que seja seu conteúdo, político, pedagógico, cultural, sempre existe o propósito de filtrar um sentido e mantê-las sob ele. Porém, elas resistem a esse imperativo da comunicação racional. “O que se lhes dá é sentido e elas querem espetáculo. Nenhuma força pôde convertê-las à seriedade dos conteúdos, nem mesmo à seriedade do código. O que se lhes dá são mensagens, elas querem apenas signos, elas idolatram o jogo de signos e de estereótipos, idolatram todos os conteúdos desde que eles se transformem numa seqüência espetacular. O que elas rejeitam é a ‘dialética’ do sentido”, ou em outras palavras, as massas se opõem ao sentido e lhe impõem sua vontade do espetáculo (BAUDRILLARD, 1994, p.15).

De acordo com Baudrillard, não se trata de mistificação ou alienação, mas de uma contra-estratégia expressiva e positiva, um trabalho imemorial de absorção e aniquilamento do social, da cultura, do saber: “o sentido não seria mais a linha de força ideal de nossas sociedades, sendo o que escapa apenas um resíduo destinado a ser reabsorvido qualquer dia” (BAUDRILLARD, 1994, p.15). O sentido, ou a sua produção, diz respeito apenas a uma minoria, uma camada superficial de nossas sociedades. Isso vale também para os indivíduos: “nós somos apenas episodicamente condutores de sentido, no essencial e em profundidade nós nos comportamos como massa, vivendo a maior parte do tempo num modo pânico ou aleatório, aquém ou além do sentido” (BAUDRILLARD, 1994, p.16).
Muito freqüentemente a massa investe mais num jogo de futebol do que em algum evento político importante. Baudrillard afirma não ser esse comportamento nem indiferença, nem passividade nem manipulação do poder sobre as massas, mas sua única prática, uma recusa a participar dos ideais que lhe são propostos (BAUDRILLARD, 1994, p.15-16).
A partir do século XVIII, o social se apodera do político, em outras palavras, antes o político era apenas um jogo de signos, pura estratégia e aparência, não se preocupando com uma “verdade” social ou histórica. Depois é dominado por mecanismos de representação e a cena política se torna cena de evocação do significado do povo, da vontade do povo. Não é mais sobre signos, mas sob sentidos que ela trabalha, “é obrigada a significar o melhor possível esse real que ela exprime, intimada a se tornar transparente, a se mobilizar e a responder ao ideal social de uma boa representação” (BAUDRILLARD, 1994, p.20).
A partir desse momento o social e o econômico predominam sobre o político e a este resta ser o espelho legislativo, institucional e executivo de ambos. Porém, o triunfo do social é também o seu fim. Ele perde sua especificidade histórica, sua energia e idealidade em prol de uma conformação em que o político se volatilizou e que o próprio social adquiriu o nome de MASSA, pois não há significado social que dê força a um significante político (BAUDRILLARD, 1994, p.21).
Só há um referente: o da maioria silenciosa, que tem apenas uma existência estatística. Porém, Baudrillard (1994, p.22) chama a atenção para o fato de que, embora as massas sejam um referente imaginário, isso não quer dizer que elas não existam, apenas não há representação possível para elas. “Elas não se expressam, são sondadas. Elas não se refletem, são testadas”. Só podem ser conhecidas através de médias, sondagens, testes, ou seja, tornam-se um simulacro. E nisso, autores díspares como Merton e Lazarsfeld (2000, p.113) concordam com Baudrillard no aspecto de que sondagens e surveys não dão a conhecer a massa, somente fornecem dados sobre oferta e consumo. No que refere especificamente ao consumo dos meios de comunicação, a sondagem não mostra os efeitos que eles provocam no comportamento, atitudes e perspectivas das massas.
Portanto, metodologicamente “não é mais possível se tratar de expressão ou de representação, mas somente de simulação de um social para sempre inexprimível e inexprimido”. O silêncio das massas é, portanto, uma arma, não alienação, segundo Baudrillard, pois proíbe que se fale em seu nome. Ninguém pode se intitular seu representante, nem se pode falar delas como se fala de classe ou povo. Não são sujeitos, não podem ser faladas, articuladas, representadas e nisso reside seu poder – “não sendo sujeito, elas não podem ser alienadas (BAUDRILLARD, 1994, p.23).
Procura-se fazer a massa falar, pressionando-a a existirem de forma social, que elas participem, mas só se pode tratar delas em terceira pessoa.
“Daí esse bombardeio de signos, que a massa supostamente repercute. Ela é interrogada por ondas convergentes, por estímulos luminosos ou lingüísticos, exatamente como as estrelas distantes ou os núcleos que são bombardeados com partículas num ciclotron. Isso é informação. Não um modo de comunicação nem de sentido, mas um modo de emulsão incessante, de input-output e de reações em cadeia dirigidas, exatamente como nas câmaras de simulação atômicas” (BAUDRILLARD, 1994, p.25).
Todavia, Mills observa que as opiniões só são formadas dentro das instituições de poder predominantes. Mesmo que algum setor ou grupo tenha mais influência sobre a opinião de outros, não a monopoliza. Isso é contraditório porque a informação, em vez de criar a “relação social”, é um processo que dá fim ao social. Informação e mensagens não se estruturam nem liberam energia das massas, ao contrário, é sua matéria prima, pois a torna mais impermeável às instituições do social e aos conteúdos da informação. O que falta às massas, em realidade, não é o sentido, mas a sua demanda. “Sem essa demanda, sem essa receptividade, sem essa participação mínima no sentido, o poder só é o simulacro vazio e o efeito solitário de perspectiva” (BAUDRILLARD, 1994, p.27). Ela absorve toda a energia do social, todos os signos e mensagens, mas não os refrata, repercute – digere-os. Conduz os fluxos de informação, de normas, mas estas não de seu sentido.
O silêncio das massas fissura o político e o social da realidade que conhecemos. Não há nem houve manipulação, mas um jogo que é jogado pelos dois lados, com as mesmas armas. Não se sabe quem é o vencedor: “a simulação exercida pelo poder sobre as massas ou a simulação inversa, dirigida pelas massas ao poder que nelas se afunda” (BAUDRILLARD, 1994, p.29).
A massa não é sujeito nem objeto de saber. Ela é impermeável, só alcançada por sondagens e estatísticas, que não dão conta de um objeto real. E o que os produtores de mass media mais temem é que suas mensagens nunca cheguem ao destino e permaneça “só o meio funcionando como efeito ambiente e se apresentando como espetáculo e fascinação” (BAUDRILLARD, 1994, p.32). Segundo ele,
“o pensamento crítico julga e escolhe, produz diferenças, e é pela seleção que ele vigia o sentido. As massas, elas não escolhem, não produzem diferenças, mas indiferenciação – elas mantêm a fascinação do meio, que preferem à exigência crítica da mensagem.” [] “Obtém-se a fascinação ao neutralizar a mensagem em benefício do meio, ao neutralizar a idéia em proveito do ídolo, ao neutralizar a verdade em benefício do simulacro.” (BAUDRILLARD, 1994, p.33).
Baudrillard afirma que, também na esfera política, se trabalha com a hipótese de que as massas são suscetíveis à ação e ao discurso, que elas têm opinião e que existem por detrás das sondagens e das estatísticas. Mas, para ele, há muito tempo que o político tornou-se um espetáculo vivido a partir da vida privada e consumido como divertimento (“entretenimento”?).
O povo tornou-se público e aprecia “as flutuações de sua própria opinião na leitura cotidiana das sondagens” (BAUDRILLARD, 1994, p.34). Porém, Mills (1985, p.136) estabelece uma diferença entre público e massa. Num público existe um relativo equilíbrio entre as pessoas que expressam opiniões e as que recebem e as comunicações públicas são organizadas de modo possibilitar a réplica imediata e eficaz das opiniões. Na massa as pessoas expressam menos opiniões do que recebem e as comunicações se organizam de forma a dificultar, quando não impossibilitar, as réplicas. “A massa não tem autonomia frente as instituições; ao contrário, agentes de instituições autorizadas se infiltram nessa massa, reduzindo qualquer autonomia que ela possa ter na formação de opinião através da discussão” (MILLS, 1985, p.136).
Talvez por isso, Baudrillard afirme (1994, p.34) que não há o engajamento das massas, de modo consciente, na política ou na história, devido a um antagonismo existente entre elas – massas despojadas de sentido – e as classes portadoras do social, do político e da cultura, que investem no sentido. Canclini (1997, p. 189) concorda, com ambos os autores, sobre como essa teatralização da política e sua transferência para os meios eletrônicos transformam-na em um “processo que preserva de modo mais apolítico o que a política tem de ação”. Falando sobre a América Latina, ele observa como líderes políticos se utilizaram desse mecanismo do espetáculo para construírem sua imagem diante da “massa”:
“Fernando Collor, Carlos Menem e Alberto Fujimore são alguns dos líderes que, nos últimos anos, cultivam esta mudança. Suas campanhas publicitárias pré-eleitorais, e durante o seu exercício como governantes, atribuem a sua associação com o esporte um papel decisivo para a construção de suas imagens públicas. [] Não é sua ação propriamente política (menos ainda o debate argumentado) o que se oferece para resolver os problemas sociais, mas a força bruta. O herói político dos meios de comunicação de massa se baseia neles mais que na sua inteligência ou habilidade”. (Canclini, 1997, p.190).
Até a década de 1960, a história e a esfera pública dominam, o privado e o cotidiano são apenas o avesso da esfera política. Hoje, de acordo com Baudrillard (1994, p. 35), o recuo para o privado, para a banalidade do cotidiano individual, pode ser um “desafio direto ao político, uma forma de resistência ativa à manipulação política”. A história e o político agora são instâncias abstratas, tornando as massas além da política e o privado, o cotidiano, o insignificante estariam além da representação.
As maiorias silenciosas fazem parte de tudo aquilo que historicamente fez resistência ao social, que pode se traduzir em resistência ao trabalho, à escola, à segurança e também à informação. A história oficial procurou apenas registrar o desenvolvimento do social, deixando em segundo plano e/ou taxando de bárbaro, tudo aquilo que não se conformasse ou não fosse de encontro a ele. Baudrillard (1994, p.37) observa, no entanto, que a resistência ao social progrediu mais rapidamente do que ele próprio, tomando outras formas não violentas que foram absorvidas pela forma seguinte. As resistências frontais à socialização (vacinação, registros de nascimento e óbitos por exemplo) vieram, na maioria das vezes, de grupos tradicionais que procuravam preservar sua cultura e estruturas originais.
Canclini (1997, p.110) cita um estudo realizado por Armando Silva sobre as cidades de São Paulo e Bogotá e que mostra um dado curioso. As pessoas mais velhas tendiam a dizer que seus locais de encontro preferidos eram igrejas, praças, bares e, em Bogotá, confeitarias. Já as mais jovens, demonstravam sua preferência por centros comerciais e estações de metrô. Isto, segundo ele, indica uma tendência mundial das gerações mais jovens preferirem os “não-lugares”.
O que demonstraria como os grupos tradicionais não se alinham “em uma decodificação uniforme e imposta, decodificam as mensagens à sua maneira, as interpretam (através de líderes) e as transpõem (segundo nível), opondo o código dominante seus sub-códigos particulares, e terminam por reciclar tudo o que os atinge em seus próprios ciclos” (BAUDRILLARD, 1994, p.37). Entretanto, esses mecanismos são tradicionais e ainda se inscrevem na ação de grupos estruturados. Os grupos tradicionais compreendem que a vida baseia-se em distâncias e que as aspirações individuais, propriedades, status profissional e hierarquias, criam, consolidam e ampliam distâncias.
Só na massa, sendo um grupo inumerável, inominável e anônimo, que recusa a socialização e provoca o seu fracasso, é que as cargas da distância são eliminadas. Na massa, todos de desencilham de suas diferenças e comportam-se como iguais. Na concentração da massa, “onde quase não há espaço entre as pessoas, onde os corpos se comprimem uns contra os outros, cada um encontra-se tão próximo do outro quanto de si mesmo. Enorme é o alívio que isso provoca” (CANETTI, 1995, pp.16-17).
No que toca aos meios de comunicação, a massa não oferece resistência às mensagens, mas torna-as um espetáculo, sem novo código, sem sentido (BAUDRILLARD, 1994, p.38). Como afirma Baudrillard, não existe manipulação da massa, pois estas são um meio mais forte que os meios de comunicação e não há nenhuma prioridade de um sobre o outro. Tanto as massas quanto os meios de comunicação são uma única coisa: mensagem.
As massas usam o sistema de forma excessiva, o que equivale a um amortecimento, ou como diriam Merton & Lazarsfeld (2000, p.119), uma disfunção narcotizante provocada (involuntariamente) pelo mass media. Para eles, a exposição a informações excessivas narcotiza o leitor/ouvinte mediano ao invés de estimulá-lo, pois preocupado em despender tempo na leitura tem menos tempo para a ação organizada. Dizem ainda que “o cidadão informado e interessado pode ainda contentar-se com seu elevado grau de interesse e informação e negar-se a ver que se absteve de decisão e ação”, ou seja, ele confunde conhecer os problemas cotidianos com uma atuação sobre eles.

Bibliografia
BAUDRILLARD, Jean. À Sombra das Maiorias Silenciosas: o fim do social e o surgimento das massas. 4. ed. São Paulo: Brasiliense, 1994. 86p.
CANETTI, Elias. Massa e poder. São Paulo: Companhia das Letras, 1995. 487p.
MERTON, Robert e LAZARSFELD, Paul. Comunicação de massa, gosto popular e a organização da ação social. In: LIMA, Luiz Costa (org.). Teoria da Cultura de Massa. São Paulo: Paz e Terra, 2000, pp.109-131.

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