A expressão obrigatória dos sentimentos

Em seu texto “A expressão obrigatória dos sentimentos”, de 1921, M. Mauss estuda os cultos funerários australianos e percebe que, tanto as lágrimas, quanto uma série de expressões orais de sentimentos não são apenas fenômenos psico-fisiológicos, mas também fenômenos sociais, que em vez de serem expressões individuais, são marcados por obrigações por parte dos membros da sociedade (Mauss, 1979, p.147). Nesse espectro, por exemplo, poderiam-se incluir os cultos funerários e o luto.
Esse caráter coletivo é grandemente marcado por cerimônias públicas que possuem regras próprias e fazem parte do ritual da vendetta e da determinação de responsabilidades, pondo em ação sentimentos e emoções construídos coletivamente, o que permite, segundo Mauss (1979, p.149), entrever a própria coletividade em interação.

Os gritos e cantos utilizados nos ritos mais simples não têm esse caráter público e social tão desenvolvido, mas, por sua vez, “falta-lhes, no mais alto grau, qualquer caráter de expressão individual de um sentimento experimentado de modo puramente individual” (Mauss, 1979, p.149). No desenvolvimento de suas tarefas cotidianas ou conversas banais, em horas, datas ou ocasiões prefixadas, membros do grupo, principalmente mulheres, começam a gritar e injuriar o inimigo ou o demônio e a esconjurar a alma do morto. Depois dessa catarse da sua cólera, o grupo volta à sua vida normal, exceto aqueles designados como portadores do luto.
Os portadores do luto são pessoas designadas que, de direito, podem e devem obrigatoriamente exercer as manifestações do luto, que não são comuns a todos os parentes. Em princípio, essa tarefa é exercida por mulheres e são geralmente as mães, irmãs e, sobretudo, a viúva do defunto (Mauss, 1979, p.150-51). Essas expressões de dor (inclusive um número convencional de gritos) e sofrimento são acompanhadas de auto-flagelações para “entreter a dor”, afirma Mauss. “Tudo isso é ao mesmo tempo social e obrigatório mas, apesar de tudo, violento e natural: a busca e a expressão da dor andam juntas” (Mauss, 1979, p.152).
“por inarticulados que sejam, gritos e uivos são sempre de certo modo musicais, a maioria das vezes ritmados, cantados em uníssono pelas mulheres. Estereotipia, ritmo, unissonância, são manifestações ao mesmo tempo fisiológicas e sociológica” (Mauss, 1979, p.152).
Todas essas expressões coletivas, simultâneas, de valor moral e de força obrigatória dos sentimentos do indivíduo e do grupo, formam para Mauss (1979, p.153) uma linguagem, pois só podem ser compreendidas porque todo o grupo as entende, e uma ação simbólica.

MAUSS, Marcel. “Efeito físico no indivíduo da idéia de morte sugerida pela coletividade”. In: In: Sociologia y Antropologia. Madrid: Technos, 1971. pp.293-306.

MAUSS, Marcel. “A expressão obrigatória dos sentimentos”. In: OLIVEIRA, Roberto Cardoso (org.). Mauss. Antropologia. São Paulo: Ática, 1979. pp. 147-53.

MAUSS, Marcel. “Concepto de la tecnica corporal”. In: Sociologia y Antropologia. Madrid: Technos, 1971. pp. 337-56.

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