Uma epistemologia de Georges Canguilhem

MACHADO, Roberto. Ciencia e Saber: a trajetória da arqueologia de Michel Foucault. Rio de Janeiro: Edições Graal, 1981.

Um trecho do livro que fala sobre Canguilhem.

[...]

A história epistemológica de Georges Canguilhem


A filosofia de Canguilhem é uma epistemologia, no sentido de uma consciência crítica dos métodos atuais de saber adequado a seu objeto. É também “uma investigação sobre os procedimentos de produção do conhecimento científico; é uma elucidação das démarches características da ciência; é uma avaliação da racionalidade científica; em suma, é uma análise da cientificidade” <17>.
Ele defende uma epistemologia regional, i.é, “não aceita ou postula a existência de critérios universais de racionalidade ou de cientificidade; procura explicitar os fundamentos de um setor particular do saber científico”. Nesse sentido, se assemelha a Bachelard.
Seu projeto de epistemologia se constrói através de uma reflexão histórica sobre as ciências. Tanto em Canguilhem, quanto em Bachelard, a filosofia se caracteriza por ser uma epistemologia histórica e também uma história epistemologia histórica .



O conceito
Normalmente a história filosófica das ciências é uma crônica de acontecimentos, uma descrição (=factual) [19].
Para Canguilhem, a ciência não pode ser encarada como fenômeno natural, mas também não é um fenômeno cultural como os outros: é uma produção cultural. Ela é essencialmente discurso, “um conjunto de proposições articuladas sistematicamente”, mas um discurso de tipo específico pois tem a pretensão de verdade. Só no interior da ciência tem sentido se colocar a questão da verdade. “A ciência não é a comprovação de uma verdade que ela encontraria ou desvelaria”. Nem todo discurso científico é necessariamente verdadeiro, aliás, toda ciência é constituída por proposições verdadeiras e falsas. “O erro tem uma positividade” [20]. Canguilhem valoriza o erro, o falso e o ultrapassado como caminho indispensável da história da verdade.
Ele concorda com Bachelard quando afirma que a ciência é principalmente trabalho, obra, produção. É o lugar da verdade e está na verdade, pois só seus procedimentos são capazes de produzi-la. É o que Canguilhem chama de veridicidade: “a veridicidade ou o dizer-o-verdadeiro da ciência não consiste em uma reprodução fiel de alguma verdade inscrita desde sempre nas coisas ou no intelecto”. Cada ciência produz sua verdade e não existem critérios universais ou exteriores para julgar a verdade de uma ciência [21].
“Só a ciência produz conhecimento e o problema do conhecimento só pode ser corretamente formulado através do estudo dos procedimentos científicos de produção de conhecimentos”. Apenas através da referência à ciência se pode definir verdade, conhecimento e razão. “Pois é justamente essa característica de racionalidade, de veridicidade do conhecimento científico que explica por que a história da ciência não pode se contentar em ser descritiva ou factual”.
O discurso científico tem uma normatividade interna expressa primordialmente pelos conceitos, em outras palavras, a formação dos conceitos define a racionalidade do discurso científico [22].
Canguilhem diferencia a palavra do conceito. “Um conceito é uma denominação e uma definição; é um nome dotado de um sentido capaz de interpretar as observações e as experiências”. Segundo ele, não se pode compreender as diversas démarches da ciência sem privilegiar a análise da formação dos conceitos [22-23].
Ele considera o conceito a manifestação mais perfeita da atividade científica e deve ser privilegiado pela análise histórica, com relação aos outros aspectos da ciência, pois é através dele que o discurso expressa a racionalidade que o caracteriza. É isso que explica que a epistemologia de Canguilhem é uma história do conceito e não da teoria ou mesmo da ciência.
Teoria e conceito são coisas diferentes. “Uma teoria é constituída por um feixe de conceitos, por um sistema conceitual. E, neste sistema, enquanto o conceito assinala a existência de uma questão, a formulação do problema, a teoria apresenta determinada resposta, sugere uma solução. Privilegiar o conceito significa valorizar a ciência como processo” [24].
Canguilhem não tem como interesse principal o nascimento, o desenvolvimento ou a transformação de uma ciência. Para ele não existe um tempo comum e global das ciências. Cada ciência é um objeto específico que tem sua própria historicidade. A sua história epistemológica está centrada no conceito e é isso que a distingue da história social. Seu objeto não se encontra no real – natural ou social – nem em nenhuma ciência. “É a historicidade do discurso científico, historicidade esta que se manifesta no conceito, e que só quando constituída como objeto pela história epistemológica permite distinguir um ‘espaço tempo ideal’ de um ‘espaço tempo imaginário’”.
Os conceitos porém não têm fronteiras epistemológicas, podem se situar em diferentes ciências. É o caso do conceito de normal que é analisado no campo da fisiologia, da patologia, da clínica e também na sociologia [26].
O mais elementar a fixar na análise de Canguilhem é o privilégio do conceito e a procura sistemática das inter-relações conceituais.
“A história que Canguilhem defende, a história epistemológica que tematiza as inter-relações conceituais, não se limita ao interior de uma ciência, mas também não se esgota seguindo as filiações conceituais em ciências diferentes ou mesmo explicitando suas relações com saberes não-científicos: deve relacionar os conceitos com as práticas sociais e políticas” [28-29].

A descontinuidade
Tanto para Canguilhem quanto para Bachelard, a ciência, enquanto processo, é afetada pelo progresso [31].
No entanto, a noção progresso aplicada à ciência significa o fato de o conhecimento científico se desenvolver no sentido de uma verdade e uma racionalidade cada vez maiores. Essa racionalidade significa, segundo Bachelard, um crescimento do número das verdades, um aprofundamento da coerência das verdades.
“A história das ciências é a tomada de consciência explícita, exposta como teoria, do fato de que as ciências são discursos críticos e progressivos para a determinação daquilo que, na experiência, deve ser tido como real”. TEM UMA SEMELHANÇA COM WEBER QUANDO SE REFERE AO CARÁTER INACABADO DA CIENCIA. A especificidade da história da ciência está em não só relaciona-la com o progresso, mas considerar a ciência e sua história de acordo com o tipo de relação existente entre a verdade e o erro [32].
Essa idéia de progresso científico de Canguilhem não tem nada a ver com a tese positivista de que “a anterioridade cronológica é uma inferioridade lógica”. Ao contrário, Canguilhem valoriza o erro passado para o aperfeiçoamento da verdade. O erro é um valor que tem, ou teve, uma positividade. “Uma idéia ultrapassada representa um ultrapassamento” [33].
O positivismo, segundo Canguilhem, é uma filosofia da história que generaliza a lei de sucessão das teorias segundo um movimento irreversível que substitui o falso pelo verdadeiro. Para ele, não se pode identificar o atual como a verdade de sempre. Ao valorizar o erro, Canguilhem propõe, não sua anulação, mas o reconhecimento que este tem o mesmo direito que a verdade de figurar na história das ciências [34].
O progresso da ciência, para ele, é descontínuo. É contra a idéia de se buscar precursores, pois só se pode reconhecer que um autor é “precursor” de outro depois de se estabelecer uma sucessão lógica entre eles e se certificar “a identidade da questão e da intenção da pesquisa, identidade de significação dos conceitos diretores, identidade do sistema de conceitos onde os precedentes adquirem sentido” [35].
Bachelard afirma uma idéia semelhante que é a de que o progresso não é evolutivo, mas dialético e também dois sentidos inter-relacionados da idéia de ruptura.

  1. a que designa a descontinuidade existente, em qualquer momento da história, entre a racionalidade científica e o saber vulgar, comum, cotidiano. O que significa dizer que a ciência não é a organização e a sistematização dos dados obtidos pela percepção. E que o objeto científico é uma obra, é construído. A ciência tem outras bases, diferentes da opinião, do senso comum, do saber cotidiano, rompe com a percepção através dos métodos, conceitos e objetos.
  2. e a de que “uma ciência se constitui em determinado momento da história, momento em que institui sua própria racionalidade e inicia sua história, sem retomar para si a problemática do saber pré-científico”. E mesmo depois de seu nascimento ela continua se desenvolvendo através de rupturas sucessivas, numa reorganização contínua de suas bases [36-37].

As rupturas, portanto, são sucessivas e parciais e que não se inscrevem na dimensão da ciência geral, passando de um estágio pré-científico a um estado científico.
A análise da descontinuidade situa-se ao nível do conceito. A epistemologia é uma história conceitual e é através do conceito que se tematiza a questão da historicidade. Embora a ciência seja uma teia de elementos conceituais de tempos heterogêneos, isso não impede sua independência relativa.
O conceito se institui em um momento determinado na história e não se forma definitivamente, pois também é deformado e retificado ao longo do tempo [39].
Porém, a história de um conceito não é a história da cientificidade. Ele não vè o conceito como

  1. Althusser --> o ponto de não retorno a partir do qual uma ciência começa, assume sua história e já não é mais possível retomar noções anteriores)
  2. e como Bachelard --> a passagem de uma noção pré-científica a um conceito científico.
Ele não diferencia noção de conceito, as duas expressões são sinônimas [41]. Ele vê a formação do conceito como condição de possibilidade para a instauração da cientificidade.

Para esclarecer ainda mais as questões da autonomia do conceito com relação à produção de critérios que definem a racionalidade científica e do privilégio concedido ao conceito na epistemologia de Canguilhem, é preciso analisar a questão da experimentação científica. “É que produzir um conceito e experimentar são duas démarches que não só não coincidem como também a segunda é dependente da primeira, que lhe serve de condição de possibilidade” [42].
Ele vai distinguir o diferente estatuto dos conceitos a partir de 3 critérios comparativos, originários da epistemologia de Bachelard:

  1. a distinção entre o pensamento científico e o pré-científico.
  2. A distinção entre experiência comum e científica.
  3. A distinção bachelardiana entre o “fenomenológico” e o “fenomenotécnico”. Quando o fenômeno deixa a experiência teórica, dos livros, e passa a existir também no laboratório, o fenômeno deixa de ser “fenomenológico” e o “fenomenotécnico”.

Para Canguilhem, o conceito pode nascer antes de se tornar científico, pois sua formação é anterior às experiências e às experimentações e que ele será tanto mais científico quanto mais fenomenotécnico se tornar [44].

A recorrência
Outra característica fundamental na epistemologia de Canguilhem é o caráter normativo da história das ciências. Isso significa dizer que a história das ciências tem como principal objetivo julgar o passado da ciência. Segundo Bachelard, julgar a ciência significa distinguir o erro e a verdade, o inerte e o ativo, o nocivo e o fecundo, examiná-la quanto à sua cientificidade, à racionalidade científica, ou seja, avalia-la quanto à produção da verdade.
É isso que distingue a história epistemológica das histórias consideradas factuais ou descritivas. A história da ciência não é um gênero da história geral, ela está se produzindo constantemente. A historicidade do discurso científico exige que o historiador se coloque numa posição valorativa em relação à verdade. “Um discurso que tem pretensão de verdade, um discurso que pretende se constituir como cada vez mais verdadeiro – o científico – seria desconhecido no que tem de essencial se fosse analisado por um discurso – o histórico – que só procurasse repertoriar, narrar, seriar, sem julgar, sem ser normativo” [46-47].
“A epistemologia é uma reflexão sobre a cientificidade da ciência, isto é, um trabalho de elucidação do conhecimento científico que procura compreender o que lhe é característico, o que lhe é distintivo. Trata-se de distinguir a ciência de um conhecimento pré-científico […] e isso só pode ser realizado a partir de critérios de cientificidade”. É também elucidar o problema do conhecimento científico e refletir filosoficamente sobre as ciências, privilegiando a formação de seus conceitos.
A perspectiva de Bachelard e Canguilhem não aceita a existência de critérios válidos universalmente para todos os tempos, nem aceita um tempo único e homogêneo da ciência.
Como foi dito, a epistemologia é judicativa, isto é, deve distinguir no discurso científico o erro e a verdade. Mas é preciso um princípio a partir do qual julgar e esta norma não é imposta de fora da epistemologia: é a própria ciência. “O historiador da ciência, para julgar bem o passado, deve conhecer o presente; deve aprender o melhor que puder a ciência sobre a qual ele se propõe escrever a história”.
“O julgamento do passado a partir do presente distingue uma história ultrapassada, superada, caduca, abandonada e uma história sancionada, ratificada pela atualidade científica e esta integrada como ‘passado atual’. ‘O historiador procede das origens para o presente de modo que a ciência de hoje é sempre em algum grau anunciada no passado. O epistemólogo procede do atual para seus começos de modo que apenas uma parte do que ontem era considerado ciência se encontra, em algum grau, fundada pelo presente’”[49]. CONCEITO DE RECORRÊNCIA.
Bachelard fala em obstáculos epistemológicos que impedem o nascimento ou progresso das ciências. Apenas numa perspectiva normativa – uma história epistemológica – é capaz de distinguir um ato de um obstáculo. É por isso que ela só pode ser compreendida se for julgada a partir dos “valores dominantes” que definem sua atualidade [50].
Esses princípios de julgamento que representam a atualidade são, no entanto, variáveis, sendo necessário que a história das ciências seja freqüentemente refeita, reconsiderada, a partir de valores cada vez mais racionais. A atual verdade científica é sempre provisória, a recorrência também é provisória, se modificando de acordo com os critérios de julgamento [51].

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