Weber e a Teodicéia

WEBER, Max. Economia e sociedade. Fundamentos da sociologia compreensiva. Brasília (DF), Editora Universidade de Brasília, 1991. Vol.1, pp.279-418.

SOCIOLOGIA DA RELIGIÃO

8. O problema da teodicéia (pp.350-355)

“Mas quanto mais próxima a concepção de um deus único, universal e supramundano, tanto mais facilmente surge o problema de como o poder aumentado ao infinito de semelhante deus pode ser compatível com o fato da imperfeição do mundo que ele criou e governa” (351).
Segundo Weber, a questão de uma ordem impessoal e supradivina, possuidora de sentido, esbarra com a injustiça e a imperfeição da ordem social. O problema da teodicéia está intimamente relacionado com a formação da concepção de deus e com as idéias de pecado e salvação.


Weber apresenta os tipos puros destas teodicéias:

  • As escatologias messiânicas cujo processo consiste na transformação política e social deste mundo. O instrumento dessa mudança seria um herói poderoso que algum dia virá e tornará seus adeptos merecedores da salvação. “O sofrimento da geração atual são conseqüências dos pecados dos antepassados, pelos quais o deus responsabiliza os decendentes do mesmo modo que, na vendeta, o assassino se vinga no clã inteiro…”. Em alguns casos, apenas os descendentes dos piedosos, por sua piedade, alcançarão o reino messiânico (351). Os vivos devem cumprir rigorosamente os mandamentos divinos positivos para melhorar as oportunidades em vida por causa da benevolência divina, por um lado, e por outro, para obter para seus descendentes a salvação. O pecado é o rompimento com deus e uma renúncia às promessas divinas. Esse desejo de salvação e de participação no reino divino leva a uma intensificação das atividades religiosas. Quando esse evento salvador demora é muito provável a consolação com as esperanças de um futuro no ‘além’ (352).
  • A crença no além, ou seja, em um reino dos mortos em um lugar remoto, subterrâneo ou no céu, onde a vida das almas não é necessariamente eterna. Elas podem ser aniquiladas, morrer simplesmente ou perecer por omissão de sacrifícios. Começou com uma preocupação com o próprio destino após a morte e surge quando as necessidades ‘deste mundo’ já estão atendidas, por isso surge em meio a grandes proprietários e nobres e se estende algumas vezes ao clero. A vida neste mundo é considerada provisória e perecível e o próprio criador como um ser submetido às finalidades e valores do além e por ele orienta as ações neste mundo, sendo assim o problema da relação de deus e o mundo imperfeito assume maior importância (352).
  • A crença na retribuição surge, então, em algumas religiões como uma inversão da concepção que fez do além uma questão de ricos e nobre. O sofrimento, principalmente se voluntário, aquietava os deuses e melhorava as possibilidades no além. “A regra, porém, sobretudo em religiões que estão sob a influencia de camadas dominantes, é a idéia de que também no além não serão sem importância as diferenças estamentais deste mundo, uma vez que Deus as estabeleceu, idéia que ainda encontramos entre os monarcas cristãos ‘sacrossantos’. A idéia especificamente ética, contudo, é a da ‘retribuição’ dos bons e maus feitos concretos com base em um juízo dos mortos, e o processo escatológico é, portanto, em regra, um dia de juízo final”. […] Mas em vista da palidez e incerteza das possibilidades do além perante a realidade deste mundo, os profetas e sacerdotes consideravam a necessidade de vingança contra os malfeitores descrentes, apóstatas, ateus impunes sobre a terra. Céu, inferno e juízo dos mortos alcançaram significados quase universais, mesmo em religiões a cuja natureza eram originalmente tão estranhos quanto ao budismo. No entanto, mesmo que houvesse ‘reinos intermediários’ ou ‘purgatórios’, para atenuar a conseqüência de ‘castigos’ temporalmente ilimitados, eternos, por uma existência temporalmente limitada, sempre continuava existindo a dificuldade de tornar compatível uma ‘punição’ de atos humanos com um criador ético e ao mesmo tempo onipresente do mundo que era, portanto, o único responsável por esses atos”. (353).
  • A crença na predestinação é uma solução que coloca o deus onipotente além de todas as pretensões éticas de suas criaturas. Suas determinações são inacessíveis à compreensão humana, seu poder sobre as criaturas é ilimitado que os critérios de justiça humana não se aplicam a seus feitos. Nesse sentido, se desfaz o problema da teodicéia. Nessa perspectiva, a sorte dos homens sobre a terra e após a morte está predestinada. “Neste caso, o comportamento ético jamais pode ter o sentido de melhorar as possibilidades próprias neste mundo ou no além, mas sim aquele outro que, em certas circunstancias, tem o efeito prático-psicológico ainda mais forte: o de ser sintoma do estado de graça próprio, fixado pela decisão de Deus” (353).
  • A crença na providência, para Weber, é uma racionalização conseqüente da adivinhação mágica, pois essa crença é contrária à magia, transfere a essência do divino para o governo pessoal e providencial do mundo, acredita na graça divina doada livremente e condena a divinização das criaturas. Além disso, não oferece uma solução racional para o problema da teodicéia.

Weber apresenta duas visões que, segundo ele, são as duas únicas que solucionam tanto o problema da imperfeição do mundo quanto da predestinação:

  • O dualismo. “Deus não é todo-poderoso, e o mundo não é sua criação a partir do nada. Injustiça, maus feitos, pecado, tudo, portanto, que faz surgir o problema da teodicéia é conseqüência da turvação da radiante pureza dos deuses grandes e bons pelo contato com o poder […] das trevas, e com a matéria impura, considerada idêntica a este, poder que permite a uma força satânica dominar o mundo e que nasceu em conseqüência de um crime original dos homens ou dos anjos ou […] em virtude da inferioridade de um criador subalterno do mundo” (354).
  • O carma. “O mundo é um cosmos ininterrupto de retribuição ética. Culpa e mérito são infalivelmente retribuídos dentro do mundo, por meio dos destinos numa vida futura pelos quais a alma terá de passar em número infinito, renascendo para existências animalescas ou humanas ou até divinas. Méritos éticos nesta vida podem levar ao renascimento [354] no céu, mas sempre apenas temporariamente, até que se esgote a conta dos méritos. Do mesmo modo, a finitude de toda vida terrestre é a conseqüência da finitude dos bons e maus feitos na vida anterior da mesma alma, e os sofrimentos da vida atual, que parecem injustos do ponto de vista da retribuição, são expiações de pedados de uma vida passada. No sentido mais rigoroso, é exclusivamente o próprio indivíduo que cria seu destino” […]. “A conseqüência dogmática consiste na circunstancia de que um deus todo-poderoso que interfira neste mecanismo é totalmente dispensável e inimaginável: pois o eterno processo cósmico executa as tarefas éticas de semelhante deus por seu automatismo próprio”. Nesse sentido, retira a supra-divindade da ordem do mundo, opondo-se à idéia de um deus que reina pessoal, idéia que leva a idéia de predestinação” [355].

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